quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A NASALIDADE DAS VOGAIS EM PORTUGUÊS

A nasalidade das vogais em português
José Mario Botelho (UERJ e ABRAFIL)

Introdução
Primeiramente se faz necessário distinguir fonética de fonologia e seus objetos de estudo e, conseqüentemente, seus objetivos. Embora tenham particularidades, apresentam pontos afins, já que se apóiam uma na outra quando precisamos fazer uma análise dos sons vocais elementares, a qual muitos denominam tão-somente análise fonética, em vez de análise fonético-fonológica.
Enquanto a fonética estuda os sons como entidades físico-articulatórias isoladas, a fonologia irá estudar os sons do ponto de vista funcional, como elementos que integram um sistema lingüístico determinado. (Callou; Leite, 1993: 11)
Assim, os sons da fala humana, que são objetos de estudo da fonética e da fonologia, recebem tratamentos distintos, em virtude dos respectivos objetivos: aquela se ocupa da descrição e análise das particularidades articulatórias, acústicas e perceptíveis dos fones (sons da fala humana), enquanto a outra procura estabelecer diferenças distintivas entre os fonemas (elementos mínimos distintivos que se depreendem dos sons da fala humana) e quais as combinações de um com os outros na formação de morfemas, palavras e frases. Portanto, o objeto de estudo da fonética é o som da fala humana ou o fone, e o da fonologia é o fonema, unidade mínima abstrata.
Logo, constituem disciplinas distintas, mas que “têm sido entendida como duas disciplinas interdependentes, uma vez que para qualquer estudo fonológico é indispensável partir do conteúdo fonético, articulatório e/ou acústico para determinar quais são as unidades distintivas de cada língua.” (Callou e Leite, ibidem, p. 11).
Por isso, a análise que será apresentada para as vogais ditas nasais terá elementos de uma e de outra, sem que para isso se faça uma separação em todos os momentos e se estabeleça uma distinção nítida entre os elementos da análise.
Segundo Câmara Jr. (1985), o português, dentre as línguas românicas, se caracteriza por uma emissão nasal das vogais, que se efetiva em muitos casos. Observa que o fenômeno da nasalidade das vogais se apresenta também no francês, mas sob diferentes condições fonológicas. Afirma que o que se pode observar nas demais línguas românicas a partir de uma descrição fonética é “uma leve nasalação de uma vogal em contato com uma consoante nasal da sílaba seguinte, no mesmo vocábulo” (p. 46).
De fato, a nasalidade se dá quando a corrente de ar, após passar pela glote e encontrar o véu palatino abaixado e a passagem nasofaríngea aberta, tem uma parte do ar desviado para a cavidade nasal, criando os sons nasais ou os nasalizados.
Na prática, os sons nasais distinguem-se dos sons nasalizados.
Os fonemas nasais do português são: /m/, /n/ e /ñ/ (que se verificam, respectivamente, em: “mato, nora e unha”), pois nesses sons se verifica um prévio fechamento total na cavidade bucal, além do abaixamento do véu palatino. Ou seja, só consoantes podem ser nasais, como ocorre com o /m/, em que a obstrução é obtida pela aproximação dos lábios; com o /n/, em que a obstrução é obtida pela junção da ponta da língua com a parte posterior dos dentes superiores; e com o /ñ/, em que a obstrução se dá com a parte anterior da língua encostada no palato duro.
Quando não há obstrução total do ar na cavidade bucal, mas há a ressonância nasal, o som é nasalizado, como é o caso das “vogais nasais” (assim consideradas pelas gramáticas normativas e compêndios gramaticais).
Daí, Câmara Jr. ter defendido a tese de que não há vogal nasal em português, mas vogais nasalizadas, uma vez que a vogal é sempre um som bucal, cuja emissão da corrente de ar se faz livremente, ao contrário do que ocorre com a emissão da corrente de ar na produção de uma consoante, que se caracteriza como um obstáculo.
Tal nasalização da vogal pode ser fonética ou fonológica. Naquela, a vogal (que é sempre oral) recebe uma leve nasalação por conta do contato com uma consoante nasal da sílaba seguinte (ex.: “mamãe”, “cana”, “aranha”); na nasalização fonológica, a nasalação (que não é nada leve) da vogal se dá por conta do contato com um elemento nasal (arquifonema /N/) no declive da sílaba (ex.: “tampa”, “minto”, “mundo”). Certamente, não constituem fenômenos equivalentes, porquanto o resultado da nasalização fonológica é uma forma distinta daquela em que a vogal tem prolação oral, diferente do que ocorre com as formas em que se verifica a nasalização fonética.
O próprio Câmara Jr. (Ibidem, p. 46-7), ressaltando a importância da distinção dos dois casos de nasalização da vogal em português, dá subsídios para se acreditar na existência de vogais nasais na língua portuguesa. Chega, inclusive, a aceitar tal classificação, embora prefira descrever o fenômeno como sendo um grupo de dois fonemas, em que se combinam a vogal oral abafada e o elemento nasal:
Diante de uma possível nasalação, que é meramente mecânica e fonética (sem efeito para distinguir formas da língua) e uma nasalação que se opõe distintivamente à não-nasalação, é preciso encontrar um traço específico que caracterize as vogais que são nasais em termos fonêmicos. São elas as únicas vogais nasais portuguesas que merecem tal classificação. (Câmara Jr., 1985: 47)

As Vogais Nasais
É polêmico o assunto acerca da existência ou não de vogais nasais em português, apesar de ser uma característica da língua a emissão nasal para as vogais. Esta característica, que também se verifica no francês, porém, como já foi observado, em condições fonológicas diferentes, distingue o português das demais línguas românicas, cuja nasalação da vogal se dá quando em contato com uma consoante nasal da sílaba imediatamente posterior, no mesmo vocábulo.
Na língua portuguesa, verifica-se também este fenômeno ao par da emissão nasal da vogal sem o apoio do contato com a consoante nasal seguinte. Porém, não há equivalência entre os dois fenômenos, já que um, a emissão nasal da vogal sem o contato com uma consoante nasal da sílaba seguinte distingue formas (“tampa/tapa”, “minto/mito”), enquanto o outro não distingue (“tema” – com a prolação nasal ou oral do [ê], não há alteração de significado). Entretanto, referente a este último caso, é mister lembrar que em Portugal, a prolação oral da vogal [á] em flexões verbais do tipo “cantamos” distingue o Pretérito Perfeito do Indicativo do Presente do Indicativo. E isto constitui uma estranheza, principalmente, para os brasileiros, já que a vogal neste contexto fonológico soa ligeiramente fechada (abafada) aqui, o que não ocorre alhures.
Os nossos gramáticos evitam tratar deste assunto; porém, alguns fazem observações, colocando-se contrários à existência de vogais nasais na língua portuguesa, enquanto outros arrolam-nas em suas Gramáticas, porém sem uma descrição convincente delas, como é o caso de Bechara (1999), Rocha Lima (1998), Cunha e Cintra (1985) e Ribeiro (2005). Todos classificam-nas vogais nasais no item “quanto à cavidade bucal ou nasal”, seguindo a orientação da NGB acerca da classificação das vogais.
Câmara Jr. (1977, 1985 e 1991) decididamente reconhece a vogal nasal em português e a descreve como sendo “um grupo de dois fonemas que se combinam na sílaba: vogal abafada e elemento nasal”. Para ele a vogal nasal é a combinação de uma das vogais abafadas (fechadas ou semi-fechadas) e uma consoante nasal reduzida, homorgânica com a consoante imediatamente posterior da outra sílaba (campo – /kaNpu/ e não, /kãpu/). Ou seja, para aquele autor não existe vogal nasal pura, pois “a vogal nasal só se impõe numa língua em que haja contraste distintivo entre vogal nasal e vogal mais consoante nasal” (Câmara Jr., 1977), como em francês, em que se verifica /bõ/ para “bon” e /boN/ para “bonne”. Certamente, Câmara Jr. não atentou para a existência dos nomes próprios “Nilsonmar”, “Annelise” e “Polímnia”, em que não há a opção de se pronunciar as vogais destacadas se não evidenciando o seu caráter nasal, à semelhança do que ocorre naquela forma do francês, citada por ele, e em muitas outras como: “omnia”, “annonce” e “innocent”.
Para chegar a esta conclusão, o autor reserva três páginas do item IV – “A Estrutura da Sílaba”, do seu Problemas de Lingüística Descritiva, com uma explanação bem consistente e, até certo ponto, convincente. Não obstante, não trata das vogais nasais que se representam na escrita com um til (~), como: fã, Maracanã, cãibra, irmãzinha, etc., nem do caso da palavra “muito”, que, embora seja o único caso, é uma realização de um fonema vocálico nasal, em português, sem qualquer representação física que o caracterize.
Convém lembrar, também, que há um conceito (bem difundido e aceito por muitos estudiosos) de fonema que se fundamenta num pequeno número de propriedades acústicas e articulatórias, também denominados traços distintivos.
Cada conjunto de determinados traços distintivos, que se opõem entre si, constituem os distintos fonemas de uma língua e cada fonema distingue suas formas, que se opõem entre si por possuí-los, em face de uma outra forma, que não o possui (ex.: “fala/ala”, “carta/cata”, “mala/mal”), ou que apresenta um outro fonema em seu lugar (ex.: “fala/faca/vaca”, “porto/perto/peito”).
Como se pode observar, os fonemas ou conjunto de traços distintivos concorrem na constituição das formas de uma dada língua. Jakobson, já em 1962, fizera tal observação ao definir fonemas como “propriedades fônicas concorrentes, que se usam numa dada língua para distinguir vocábulos de significação diferente” (Jakobson apud Câmara Jr., 1985: 24).
Considerando tal concepção, a qual o próprio Câmara Jr. (Op. cit.) adotou e a concepção de que grafema não se confunde com fonema, uma vez que um mesmo fonema pode ser grafado de diferentes maneiras, poder-se-ia analisar aquela nasalização fonológica das vogais como verdadeiras vogais nasais.
Assim como na oposição “vala/vela” se pode observar que a nova significação se deu por conta da substituição do fonema /a/ pelo fonema /é/, da primeira sílaba, também se observa que ocorre uma nova significação na oposição “mato/manto” em virtude da substituição de um fonema oral por um nasal, cuja representação gráfica se faz com duas letras. Não teria uma descrição semelhante a oposição estabelecida entre “pato” e “passo”, ou “mofo” e “morro”, em que os fonemas /S/ e /R/, que formam as novas significações respectivamente, foram representados por duas letras? Logo, não seria argumento para se negar a existência da vogal nasal o fato de ela ser representada na escrita com um “m” ou um “n” num suposto declive da sílaba, criando o que alguns foneticistas denominam travamento nasal à semelhança do que ocorre em “amor”, em que se verifica um travamento causado pelo /R/ na posição decrescente da sílaba “-mor”.
O que se tem no caso de “samba”, “minto”, “onda” e tantas outras é um fonema representado por dois grafemas e não exatamente um travamento como ocorre em formas do tipo “carta”, “esta” e outras.
Não se pode esquecer, ainda, de que há casos em que a vogal nasal é representada com uma notação léxica (~) (“lã”, “cãibra”, irmãzinha”) e há um caso em que tal nasalidade não se representa graficamente (“muito” – “/muyNtu/”). No primeiro caso, há quem se valha de uma forma teórica em /aN/ – teoria desenvolvida pelo próprio Câmara Jr. –, cujo elemento nasal se pode resgatar em formas cognatas, como se verifica nos pares “órfã – orfanato”, “cidadã – cidadania”, “irmã – irmandade”. Contudo, esse procedimento é questionável, uma vez que nem todos os casos de vogais nasais têm em sua descrição diacrônica um mesmo caráter etimológico.
Callou e Leite (Op. cit., p. 85-90) apresenta um corpus, em que figuram pares em cujas seqüências fônicas se opõem os fonemas vocálicos orais e nasais (ou nasalizados) e aventam a possibilidade de ser aquela oposição o fato de uma conter uma vogal oral e a outra uma vogal nasal ou o fato de em apenas uma do par ocorrer um elemento consonântico nasal. Passam a discutir cada caso, considerando as idéias de Câmara Jr., que, como já observamos, aponta para a segunda alternativa como solução do problema.
Lembram que os estruturalistas concretistas apontaram para a existência das cinco vogais nasais, independentemente do elemento consonântico nasal que pode ou não ocorrer, condicionado pela nasalidade da vogal, cujas diferentes realizações fonéticas dependem da consoante subseqüente. Lembram também que Cunha (1986) descreve como dígrafo e não como encontro consonantal o que ocorre em palavras como “lindo” e “pombo”, sendo o grafema “n” ou “m” indicadores de nasalidade da vogal precedente, equivalente a um til (~) como em “lã”. Depois, ressalta a solução econômica dada pelos gerativistas de que seriam tão-somente realizações fonéticas geradas por regras a partir de uma vogal oral seguida de uma consoante nasal. Apreciam tais regras apresentadas por Perini (1971), comparam-nas sutilmente com outras também gerativas em que as vogais nasais são consideradas fonêmicas, apresentadas por Leite (1974) e concluem sem um posicionamento definido acerca de existirem ou não vogais nasais, asseverando que “nenhuma das propostas até agora apresentadas dá conta integralmente de fatos comuns em falantes do português” (p. 90).
Battisti e Vieira (1999) apresentam uma sintética leitura da proposta de Câmara Jr., seguida de referências a outras propostas.
Sobre a leitura da proposta de Câmara Jr., assim como o faz Callou e Leite, as autoras apresentam os dois tipos de nasalização da vogal (nasalidade fonética e nasalidade fonológica) e a argumentação daquele autor na tentativa de comprovação de ser a vogal nasal (nasalidade fonológica) uma vogal seguida de uma consoante nasal na mesma sílaba e que a referida nasalidade é conseqüência do travamento da sílaba por uma consoante nasal pós-vocálica.
Em seguida, apresentam uma síntese das propostas de Lopez (1979), de Wetzels (1988 e 1997) e de Moraes e Wetzels (1992), observando a semelhança entre suas abordagens com a de Câmara Jr. Por fim, afirmam que a vogal nasal “é uma unanimemente entendida, na subjacência, como uma seqüência de dois segmentos: VN” (p. 167), mas não se posicionam claramente, embora, nesse mesmo parágrafo final, asseverem:
A vogal nasalizada pura é sempre uma manifestação apenas de superfície. Por conseguinte, o sistema fonológico do português não fica alterado, pela presença da nasalidade vocálica, quanto ao número de segmentos que o compõem: sete são as vogais. (Battisti; Vieira, in: Bisol, 1999: 167)
o que faz parecer que Battisti e Vieira não só não consideram fonemas as manifestações vocálicas nasais como também as orais átonas, já que o “sistema vocálico” do português comporta apenas sete vogais – as quatro fechadas e as três abertas, que ocorrem nas sílabas tônicas.
Silva (1999) apresenta as vogais nasais sem fazer qualquer alusão ao questionamento de serem elas vogais verdadeiramente nasais ou nasalizada. Descreve o fenômeno apresentando o quadro das cinco vogais, sem fazer, inclusive, distinção entre as que ocorrem em sílaba tônica ou em átonas. Denomina tais casos de nasalização, por ocorrerem obrigatoriamente em qualquer dialeto do português, e os distingue dos casos em que ocorre nasalidade – fenômeno marcado por uma variação dialetal, sem causar diferença de significado. Logo, para a autora, quando a não-articulação da vogal nasal causa diferença de significado (ex.: “lã/lá”, “cinto/cito”, “tampa/tapa”), tem-se a nasalização; quando a não-articulação marca a variação dialetal e não causa diferença de significado, tem-se a nasalidade (ex.: “m[ã]mão ou m[a]mão”, “j[ã]nela ou j[a]nela”).

Considerações finais
Concebendo ou não uma consoante nasal reduzida – um arquifonema nasal /N/ –, que se realiza com “m” em formas do tipo: “campo, membro, limpo, ombro, rumba”, ou com “n” em formas do tipo: “canto, mente, lindo, honra, junta”, para representar fisicamente o fenômeno da nasalização, ou o til como um outro tipo de representante físico de tal fenômeno, o que não se pode negar é a existência de realizações nasais para as vogais em português.
Assumimos que tais realizações nasais constituem verdadeiros fonemas nasais, que se justificam não só pelo fato de se distinguirem das realizações orais em virtude de suas propriedades, mas sobretudo com o conceito de fonema, apresentado por Jakobson (Op. cit.), uma vez que a simples substituição de um segmento fônico oral por um outro nasalizado resulta uma nova forma com um novo significado. E não importa se tal segmento fônico nasal é composto de uma vogal e um elemento consonântico nasal ou uma vogal com um til, visto que um fonema pode ser representado com um ou mais de um grafema, como é o caso dos denominados dígrafos.
Logo, se um fonema se caracteriza por ser um som da fala humana que depende de suas oposições paradigmáticas (ou seja, a sua presença ou a sua ausência resulta em mudança de significação: “fala/faca/vaca/vala”, “pá/pé/pó”, “mal/má”, “plano/pano/pau”, etc.) e de suas combinações sintagmáticas: “amor/Roma/ramo/mora”, etc., as realizações vocálicas nasais são fonemas, fonemas vocálicos nasais, porquanto se comportam da mesma maneira que os que compõem as seqüências acima e se enquadram perfeitamente nelas: “vaca/vá/vã”, “pau/pão”, “canto/cato/cão”, etc.
Portanto, somos da opinião que além dos sete fonemas vocálicos orais (abertos e fechados) tônicos e dos cinco orais átonos, a língua portuguesa apresenta cinco fonemas vocálicos nasais, cujas diferentes realizações tônicas ou átonos não devem ser valorizadas por serem de natureza fonética e não fonêmica. Tais fonemas vocálicos nasais (ou vogais nasais) podem ser representados fisicamente ou com um til (~) que lhe vai acima ou seguida de uma consoante homônima às consoantes nasais (“m” ou “n”), homorgânica à consoante da sílaba subseqüente. Há ainda o único caso em português em que não há qualquer representante físico do fenômeno da nasalidade da vogal (“muito” – “/muyNtu/”).
Certamente, não pretendemos esgotar o assunto neste trabalho, por questões óbvias. No entanto, esperamos ter apresentado subsídios para uma reflexão acerca do polêmico tema.

Referências Bibliográficas
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BATTISTI, Elisa; VIEIRA, Maria José B. O sistema vocálico do português. In: BISOL, Leda (Org.). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 2ª ed., Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p. 159-194.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37ª ed., Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.
BISOL, Leda (Org.). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 2ª ed., Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
CAGLIARI, L. C. Análise fonológica: Introdução à teoria e à prática. São Paulo: Mercado das Letras, 2002.
CALLOU, Dinah; LEITE, Yonne. Iniciação à fonética e à fonologia. 2ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
CÂMARA JR., Joaquim Matoso. Problemas de lingüística descritiva. 14ª ed., Petrópolis: Vozes, 1991.
––––––. Estrutura da língua portuguesa. 15ª ed., Petrópolis: Vozes, 1985.
––––––. Para o estudo da fonética portuguesa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Padrão, 1977.
CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
MORAES, J. A.; WETZELS, W. L. Sobre a duração dos segmentos nasais e nasalização em português. Um exercício de fonologia experimental. Caderno de Estudos Lingüísticos. Campionas, n. 23, p. 153-166, jul.-dez. 1992
QUICOLI, A. Carlos. Harmony, lowering and nasalization in Brazilian Portuguese. Língua, Amsterdam, n. 80, p. 295-331, 1990.
RIBEIRO, Manoel Pinto. Nova Gramática da Língua Portuguesa. 15ª ed., Rio de janeiro: Metáfora, 2005.
SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e Fonologia do Português: roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 1999.
ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 36ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

O PAPEL DA TESSITURA DENTRO DA PROSÓDIA PORTUGUESA

Razões e Emoção
Miscelânea de estudos oferecida a Maria Helena Mateus, Junho de 2001
Departamento de Linguística Geral e Românica, FLUL
O papel da tessitura dentro da prosódia portuguesa
Luiz Carlos Cagliari (UNICAMP / CNPq)
Gladis Massini-Cagliari (UNESP / FAPESP)
0. Introdução
Os elementos prosódicos da linguagem têm estreita relação com a estrutura dos textos.
As funções da tessitura, da entoação e do ritmo vão além dos limites dos itens lexicais ou das
palavras, referindo-se a funções sintáticas mais próximas da extensão das frases do que das
categorias que integram as estruturas sintáticas. As funções das unidades prosódicas maiores
têm sido menos pesquisadas, à exceção dos estudos de entoação que, de tempos em tempos,
recebem uma atenção especial de alguns linguistas. Já as relações entre Fonologia e Prosódia
têm merecido a atenção de vários pesquisadores nas últimas décadas, sobretudo depois da
introdução dos modelos fonológicos métricos e prosódicos (Selkirk, 1980, 1984; Nespor &
Vogel, 1986).
No entanto, dentre os elementos prosódicos que estruturam uma língua, a tessitura tem
sido, de longe, o mais negligenciado. Nos estudos fonético-fonológicos do português, a
tessitura, que pode ser definida como “a escala melódica do falante, i.e. os limites em que se
situam os seus valores mais altos e mais baixos de F
0
, quando fala normalmente” (Mateus et
alii, 1990: 193), tem recebido apenas algumas menções, nunca um estudo especialmente voltado
para a sua análise.
Mediante ajustes da laringe, um falante pode abaixar ou aumentar consideravelmente a
sua frequência fundamental
1
, relativamente ao intervalo das frequências mais altas e mais baixas
que costuma utilizar na sua fala normal, com objetivos expressivos (como a expressão de fúria,
raiva, desespero, etc.). Este tipo de variação de tessitura recebe o rótulo de variação de registro
(ou “registo”, cf. Mateus et alii, 1990: 193).
As alterações de registro podem desempenhar este tipo de funções expressivas ligadas
às intenções discursivas do falante; desta forma, o estudo da tessitura tem um papel importante
na determinação do papel dos elementos prosódicos, enquanto organizadores do contínuo da
cadeia sonora e reveladores da estrutura do discurso.
Como não há muitos trabalhos a respeito do papel da tessitura na prosódia do português,
o presente trabalho pretende mostrar, ainda que de maneira inicial, algumas das funções da
tessitura, privilegiando seu estudo, dentro da prosódia de nossa língua. No entanto, como a
tessitura não pode ser estudada em isolado dos demais elementos prosódicos, o presente
trabalho pretende, também, mostrar algumas relações entre esse fenómenoprosódico e a
entoação.
1. Elementos prosódicos
Desde o início dos estudos fonéticos, foi observado que, além dos segmentos (que
correspondem a sons determinados, em termos articulatórios, acústicos e auditivos,
representados através dos alfabetos fonéticos), há elementos sonoros que se estendem por mais
de um segmento, às vezes até sobre todo o enunciado - daí a designação “supra-segmentais”:
elementos que “pairam sobre” os segmentos
2
. Em alguns trabalhos, esses elementos supra-
segmentais também recebem o nome de prosódicos
3
.
Mas o rótulo “supra-segmento” nem sempre pode se confundir com “prosódia”, uma
vez que há dois tipos de elementos que podem “pairar sobre” os segmentos: a) propriedades
fonéticas como labialização, palatalização, nasalização, ou seja, características sonoras que se
estendem por mais de um segmento, mas numa extensão pequena, geralmente restrita a uma
relação de contiguidade (uma espécie de “micro-prosódia”) - Cagliari (1982; 1992a); b)
elementos diferentes dos segmentos em natureza fonética e que caracterizam unidades maiores
do que os segmentos, sendo pelo menos da extensão de uma sílaba (exemplos: acento, tom,
entoação, etc.) - Laver (1980, 1994); Cagliari (1992b). Desta forma, o presente trabalho
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distingue dois tipos de fenómenosque “pairam sobre” os segmentos: supra-segmentais (tipo a) e
os prosódicos (tipo b).
Mateus et alii (1990: 191) opõem às propriedades inerentes aos segmentos as
propriedades prosódicas e, a este respeito, afirmam:
As propriedades que estão associadas aos segmentos e que determinam a sua qualidade
distinguem-se, habitualmente, das propriedades prosódicas que estão associadas a unidades
mais vastas como a sílaba, a palavra ou a frase. Como, neste sentido, a maior parte das
propriedades prosódicas estão relacionadas com a evolução no tempo da frequência
fundamental, da duração e da intensidade, o termo «Prosódia» é, muitas vezes, utilizado para
referir o conjunto de fenómenos que envolvem qualquer um destes três atributos acústicos
4
.
Por prosódia, portanto, entende-se todo fenómeno cuja unidade descritiva se
circunscreve além do nível da sílaba. São, pois, fenómenos prosódicos a entoação, a tessitura, o
ritmo, a concatenação e a qualidade de voz. Como já foi dito anteriormente, o presente trabalho
ocupar-se-á apenas dos dois primeiros.
2. Tessitura e entoação
Por ser um dos elementos prosódicos da língua, o estudo da tessitura não pode se dar de
maneira isolada dos demais, em especial, da entoação e do ritmo.
Por se utilizarem de variações na frequência fundamental do falante na sua constituição,
as aproximações entre entoação e tessitura são mais óbvias: enquanto a primeira é construída
sobre as variações de F
0
nos limites do enunciado, a segunda focaliza as variações nos intervalos
entre a frequência mais baixa (mais grave) e a mais alta (mais aguda) do indivíduo. Assim,
enquanto as variações de frequência fundamental constituem os padrões entoacionais dos
enunciados, as variações de registro (tessitura) podem deslocar esses padrões para níveis mais
graves ou mais agudos, mantendo intactos o “desenho” dos padrões.
2.1. Um pouco de história
A observação da variação melódica da fala foi descrita inicialmente através de notação
musical (Steele, 1779). A partir dessa ideia, passou a ser representada por pequenos traços
localizados entre duas linhas (reais ou imaginadas) representando a tessitura. Dado o interesse
em alguns padrões específicos, como a queda, que ocorria nas asserções ou subida do tom em
frases interrogativas, a notação passou a usar linhas descendentes e ascendentes, juntamente
com o traços para as demais partes, em geral, consideradas menos importantes ou mesmo
irrelevantes (Crystal, 1975: 74-83)
5
. Análises mais sofisticadas, em geral, encontradas em teses
e dissertações acadêmicas, sobretudo investigando o fenómenoatravés de equipamento para
análise do sinal acústico (Cruttenden, 1986; Reis, 1995), procuraram encontrar padrões
relevantes para o que, antes, era considerado menos importante. Nesse sentido, foram apontados
picos e vales na linha do perfil melódico dos enunciados, em geral, associados a ênfases (picos)
ou ligados a ideias menos importantes (vales). Esses estudos aproximaram a entoação de outros
factos sintáticos, para além da oposição entre frases afirmativas e interrogativas. Apontaram
também para uma função delimitativa que era bastante evidente no início de enunciados, com
uma ascensão da curva melódica, e menos evidente em outros casos, os quais podiam ter
determinado facto apenas pelo acaso do enunciado sob investigação.
Disso tudo surgiu a necessidade de simplificar e generalizar a descrição da entoação. As
funções primitivas relativas aos tipos de frases (afirmativa, interrogativa) eram bem claras e
definidas, mas as demais se diluíam em tentativas mais ou menos bem sucedidas. Na verdade,
poucos factos ficaram em definitivo, como a localização da mudança da direção da altura
melódica, que ocorre na sílaba tónica frasal, que carreia o foco do enunciado.
A simples atribuição de padrões variantes aos dois tipos básicos, afirmativo e
interrogativo, não era vista com uma análise adequada. O acréscimo de um padrão para definir
‘frases incompletas’ veio se juntar aos outros dois. Em pouco tempo, havia uma grande
quantidade de padrões, descaracterizando novamente o sistema entoacional. Havia mesmo um
sentimento de que a entoação era assim: tinha uma função sintática específica, associada aos
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três tipos de frases, e uma função de ‘enfeitar’ a fala, tirando sua monotonia, que, às vezes, era
possível associar a uma intenção do falante em enfatizar ou não o que dizia. Em outras palavras,
o sistema entoacional tinha um lado muito rígido e outro muito variável
6
.
Com o estabelecimento da oposição tema/rema (noções inicialmente desenvolvidas pela
Escola Funcionalista de Praga)
7
, foi possível dividir as frases e, consequentemente os grupos
tonais em duas unidades distintas. Como mostrou Halliday (1970: 40-43), a essas duas unidades
funcionais (sintático-semânticas) era possível atribuir duas partes distintas de um padrão
entoacional, às quais chamou de componentes pretónico e tónico. A divisão do contorno
entoacional ocorre na sílaba tónica saliente (Abercrombie, 1965; Halliday, 1970: 1-3; Cagliari,
1982: 158-159), indicando o início do componente tónico. Com essa divisão, ficaram atribuídas,
preferencialmente, ao componente pretónico, variações associadas a ideias semânticas e, ao
componente tónico, as variações associadas a noções sintáticas. Por exemplo, no português, um
padrão descendente é associado a uma frase afirmativa. Se seu componente pretónico estiver em
um nível médio, a afirmação é considerada ‘neutra’. Se estiver em um nível alto, será uma
afirmação enfática, se estiver em um nível muito baixo, terá o valor de uma afirmação
ameaçadora.
Nesse momento, a entoação deixou de ser um simples “acompanhamento” sintático,
para se tornar um facto fonológico bem definido, com interface com a Sintaxe e com a
Semântica, através de padrões que podiam ser bem estabelecidos pela realização fonética e pela
função sintática ou semântica a eles atribuída. Infelizmente, o trabalho de Halliday não teve
muitos adeptos, uma vez que dependia crucialmente de um treinamento de percepção auditiva
para a identificação dos padrões entoacionais dentro de uma descrição sofisticada dos pés
rítmicos, ou seja, da habilidade de analisar e interpretar grupos tonais
8
. Em vez disso, muitos
foram buscar em análises acústicas instrumentais do fundamental uma regularidade obtida
através de sofisticado tratamento estatístico. E nessa busca, deixaram para trás a entoação como
uma facto prosódico do sistema fonológico da língua. Esse tipo de análise baseia-se na
atribuição de uma valor melódico a uma sílaba e busca na contiguidade das sílabas alguma
constante. A interface com a Sintaxe e com a Semântica aparece como referência secundária.
Ou, inversamente, parte de um fenómenosintático (como, por exemplo, frases interrogativas) e
descreve todas as sequências de variação melódica das sílabas dos enunciados investigados,
perdendo de vista a função das partes, e a associação necessária do sistema entoacional com o
sistema rítmico da língua.
Porque os estudos sobre o ritmo ganharam grande destaque e atenção, sobretudo após o
surgimento da Teoria Métrica
9
, a Fonologia passou a lidar com o ritmo e suas manifestações de
modo bem definido teoricamente, revelando um aspecto importante da prosódia das línguas. No
entanto, não aconteceu o mesmo com a entoação. Apesar de alguns esforços (sobretudo dentro
da teoria prosódica - ver Nespor & Vogel, 1986), a entoação ainda não é vista com a mesma
importância atribuída ao ritmo. Isso se deve ao facto de as investigações sobre a entoação não
terem encontrado uma função fonológica bem definida, restando sempre uma grande quantidade
de variantes. Falta-nos, ainda, o estabelecimento de uma teoria entoacional com um aparato
formal semelhante ao que foi feito para a teoria fonológica do ritmo (Halle & Vergnaud, 1987;
Hayes, 1995; Hammond, 1997; Kager, 1999).
2.1.2. Tons Entoacionais do Português
Seguindo o modelo proposto por Halliday (1970), os padrões entoacionais dos
enunciados das línguas podem ser descritos através da noção de grupo tonal. Todo grupo tonal
terá sempre uma sílaba tónica saliente (onde cai o acento frasal) que coincide com a posição em
que a curva melódica muda de direção e corresponde, na anotação, à sílaba que vem logo após
as barras duplas verticais
10
. A partir desse modelo, podemos descrever o fenómenode entoação
do Português com seis tons entoacionais (isto é, seis padrões entoacionais de enunciados)
primários simples, três compostos e muitas variações deles, constituindo os tons secundários.
Abaixo, apresentam-se os tons primários e alguns secundários
11
.
Page 4
4
Tons primários simples:
12
Tom Padrão
Significado
Exemplo
1
------
-
_
declaração, asserção
//1Ontem cho/veu muito.//
2
------
--
interrogação
//2

Es/tá chovendo?//
3
--
-_
----
incompleto
//3 Ela disse:// (//1fique quieto//)
4
--
--
-
-
-
surpresa interrogativa
//4 Eu não sei?!//
5
_--
-

-
--_
asserção enfática
//5

Mas /eu entreguei o tra/balho!?//
6
------

-
___
‘certas’ frases relativas
//6

Foi ela /quem me /disse.//
Tons primários compostos:
Tom Padrão
Significado
Exemplo
13
------
-
_----
declaração
incompleta
//13

Se /ele vi/er aqui,/ eu compro//
53
_--
-

-
--_----
asserção enfática
incompleta
//53 Quando ela che/gar aqui,// (...)
63
------

-
___----
frases relativas
incompletas
//63

O homem que /é mortal // (...)
As variações que formam os tons secundários podem ocorrer na primeira parte do tom
entoacional ou na segunda. Há muitas maneiras de fazer essas variações, trazendo sempre
pequenas modificações de significado ao enunciado. Os tons secundários (e outros fenómenos
prosódicos) costumam trazer acréscimos ao significado literal de um enunciado, chamado de
Page 5
5
atitude do falante. Nesse sentido, um enunciado pode revelar alegria, tristeza, raiva, dúvida,
incerteza, escárnio, zombaria, etc. Mostram-se, abaixo, alguns exemplos como ilustração.
Tons secundários:
Tom Padrão
Significado
Exemplo
1a
----
--
-
_
declaração enfática
//1a Ontem cho/veu /muito.//
1b
----
___
asserção forte, impaciência
//1b Ontem /choveu muito!...//
1c
--------
repetição, impaciência
//1c Isso não /é verdade!!!//
1d
_-_---
-
_
enumeração
//1d manga

/figo,

/uva e pera.//
2a
----
--
--
interrogação fraca
//2a

Vo/cê com/prou a lâmpada?//
3. A tessitura enquanto elemento prosódico
Como foi visto anteriormente, não se deve confundir o efeito da tessitura sobre o
discurso com os padrões entoacionais dos enunciados. A tessitura abrange o intervalo entre a
frequência fundamental mais baixa e a mais alta utilizada por um falante, em situação normal
13
.
Assim, os extremos dessa variação definem a extensão da tessitura
14
. Na fala comum, uma
pessoa usa uma tessitura que abrange uma oitava e meia
15
. Comparando a voz de uma mulher
com a de um homem, facilmente se percebe que uma mulher tem uma tessitura mais aguda do
que um homem.
Tradicionalmente, a tessitura tem sido deixada de lado das análises linguísticas por ser
considerada um facto ‘extra-linguístico’, como a qualidade de voz de um indivíduo (Laver,
1980). Por outro lado, ao estudar padrões entoacionais através de análises instrumentais
acústicas, tem-se notado que a altura melódica, às vezes, atinge níveis muito agudos ou muito
graves, comparados com o que ocorre comumente no enunciado. Identificado um padrão
entoacional, esse tipo de variação é descartado. De facto, a tessitura não altera a forma típica
dos padrões entoacionais, simplesmente desloca-os para cima ou para baixo com relação à faixa
de frequência fundamental.
Em uma análise mais abrangente, comparando os grupos tonais que ocorrem em um
texto, nota-se que os ‘desvios’ súbitos da faixa de frequência do fundamental localizam-se em
lugares muito específicos. Assim, por exemplo, nota-se que a queda na tessitura ocorre em uma
parte do texto em que o falante está fazendo uma digressão semântica com relação ao tópico
principal, concatenando vários grupos tonais em tessitura baixa, ou querendo colocar ‘entre
parênteses’ uma ideia, julgada menos importante. Tessituras altas são encontradas também com
a função de destacar, porém, com uma intenção de chamar a atenção para o que se diz, como
Page 6
6
acontece no caso dos vocativos, ou para dar uma ênfase à ideia que está sendo dita, destacando-
a do resto do enunciado vizinho ou no texto como um todo. Portanto, em uma perspectiva
discursiva, é possível traçar um perfil da tessitura, com os altos e baixos, mostrando os pontos
de destaque que realçam algumas ideias ou que as colocam em uma posição marginal com
relação ao que se dizia.
Nas situações dialógicas, o uso da tessitura é muito importante e ocorre com muita
frequência. A variação na tessitura está mais presente, se houver um debate acalorado entre as
pessoas. No controle dos turnos dialógicos
16
, usar continuamente uma tessitura muito baixa
significa não permitir que o interlocutor interrompa, obrigando-o a guardar um momento mais
adiante para poder dizer o que pretende. Por outro lado, o uso de uma tessitura alta, sobretudo
quando as falas se sobrepõem, significa que o interlocutor acha que precisa interromper para
fazer um comentário que, segundo ele, deve ser inserido naquele momento da discussão. Esses
dois tipos de comportamento geram uma alta tensão na discussão. Os mesmos enunciados,
quando lidos, perdem quase por completo o ‘calor’ da discussão. A volta à tessitura normal dos
falantes mostra um comportamento ‘mais polido’ na discussão ou um momento em que os
falantes discorrem sobre o assunto ou apresentam seus argumentos de maneira mais livre.
Nas situações de forte discussão, a elevação da tessitura de um falante pode fazer com
que o seu interlocutor procure um nível ainda mais alto para rebater ou acrescentar seus
argumentos. Nesse processo, pode-se chegar ao ponto em que os falantes ou um deles passem a
usar uma qualidade de voz do tipo falseto (Laver, 1980). O falseto, na fala, representa a tessitura
mais alta de um falante. Em situação de ‘bate-boca’, de briga, a ocorrência do falseto ou de uma
tessitura bem alta pode ser a maneira como o falante quer exprimir o maior poder que julga ter
sobre seu interlocutor.
A variação da tessitura não deve ser confundida com variações que podem ocorrer
dentro dos padrões entoacionais, sobretudo em caso de tons secundários (Halliday, 1970: 1-56;
Cagliari, 1982: 155-182). É preciso observar, por exemplo, que as orações relativas
17
, sobretudo
quando estão encaixadas, têm padrão entoacional que mostra, de certa forma, uma espécie de
queda na tessitura. Esse padrão, denominado tom 6 por Cagliari (1982: 165-166), caracteriza-se
por começar em uma altura meio-alta ou alta até a sílaba tónica saliente (Halliday, 1975) e cair
ao nível meio baixo ou baixo, continuando assim até o final. Esse tom costuma formar um
composto, chamado tom 63, em que o final apresenta uma elevação para o nível melódico
correspondente ao tom médio, tendo, assim, duas sílabas tónicas em um único grupo tonal.
É preciso ter em mente sempre que a produção sonora de uma pronúncia obtida através
de uma leitura tem características próprias, diferentes da fala espontânea
18
. Há um tipo de leitura
‘escolar’ que reconhece apenas os tons entoacionais primários afirmativo (tom 1), interrogativo
(tom 2) e suspenso/incompleto (tom 3), todos sem variação de tessitura (normal), de
concatenação (frases sintáticas), de tempo (velocidade média) e de ritmo (acentual). Quanto
mais assim for, mais típica será essa leitura. Já uma leitura ‘teatral’, ‘artística’, ou também
chamada de ‘interpretativa’ procura usar dos recursos prosódicos encontrados na fala
espontânea para ‘enfeitar’ a pronúncia.
19
Esse tipo de leitura salienta alguns aspectos prosódicos
da fala, às vezes, até um certo exagero. Sabendo disso, é comum encontrar nos textos literários
(e mais notadamente em scripts de peças teatrais, de filmes para o cinema ou programas de
televisão) referências que o autor faz de como certas falas foram (ou devem ser) pronunciadas,
salientando os elementos prosódicos que não podem ser representados através dos recursos do
nosso sistema de escrita.
Apresenta-se abaixo, a título de ilustração, um trecho de A Caverna, de José
Saramago
20
, com a indicação prosódica de um tipo de leitura ‘interpretativa’. Mesmo trazendo
muitas informações prosódicas para o texto (Cagliari, 1989), é curioso constatar que os
escritores lêem seus textos mais à moda escolar do que, de facto, interpretando prosodicamente
o que escreveram. Todavia, o modo de construir o texto e as referências explícitas aos
fenómenosprosódicos são informações muito claras de sua organização prosódica.
Cipriano Algor baixou a cabeça, havia que ser muito cuidadoso com as
palavras, sucedesse o que sucedesse não podia dizer ou fazer nada que arriscasse a
possibilidade de fechar o negócio dos bonecos, por isso limitou-se a murmurar, Já
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7
estava à espera disso, senhor, mas, permita-me o desabafo, é duro, depois de tantos
anos de fornecedor, ter de ouvir da sua boca semelhantes palavras, A vida é assim, faz-
se muito de coisas que acabam, Também se faz de coisas que principiam, Nunca são as
mesmas. O chefe do departamento fez uma pausa, mexeu vagamente nos desenhos,
como se estivesse distraído, depois disse, O seu genro veio aqui falar comigo, A meu
pedido, senhor, a meu pedido, para me tirar da indecisão em que me via, sem saber se
poderia ou não continuar a fabricar, Agora já sabe, Sim senhor, já sei, Deveria também
estar ciente de que sempre foi norma do Centro, de que é mesmo ponto de honra do
Centro, não aceitar pressões ou interferências de terceiros na sua actividade
comercial, e menos ainda vindas de empregados da casa, Não era uma pressão, senhor,
Mas foi uma interferência. Peço desculpa. Outra pausa. Que mais me faltará ainda
ouvir, pensou o oleiro angustiado. (pág. 95)
O autor não dispõe as falas em linhas separadas e marcadas com travessão. Apenas
concatena as frases ou enunciados (com vírgulas mais letra maiúscula a seguir) até concluir uma
ideia maior, indicada pelo ponto final. Se o leitor não prestar atenção poderá confundir as falas
dos interlocutores. Para separar a fala de um da fala de outro, será preciso caracterizar
prosodicamente um e outro personagem e, mais ainda, dar a cada fala uma certa qualidade
fonética que reflita a atitude do personagem no momento de sua fala, de acordo com a história
do romance.
O primeiro trecho apenas cria um contexto para a fala: “falar de cabeça baixa”. É uma
forma de indicar a atitude do falante. Essa atitude vem expressa ainda com “havia que ser muito
cuidadoso com as palavras”. Seu modo de escolher as palavras e de pronunciá-las podia por a
perder seu negócio comercial. Então, optou por “murmurar”. O ‘murmúrio’ usa uma tessitura
baixa e, neste caso, uma velocidade lenta. Mesmo em uma tessitura baixa, há um contraste de
tessitura entre o vocativo senhor e a conjunção mas, esta retomando uma tessitura mais alta e
aquela abaixando mais ainda a tessitura, que já estava baixa. Em seguida, a tessitura cai
novamente, dando ao enunciado “permita-me o desabafo” a possibilidade de ser considerado
uma afirmação parentética, menos importante. A tessitura volta a subir na expressão destacada
“é duro”, para cair novamente no enunciado seguinte, considerado um argumento entre
parêntese: “depois de tantos anos de fornecedor”, para subir novamente em “ter de ouvir da
sua boca semelhantes palavras”. Daí em diante, continua com a tessitura caracterizando sua
fala ‘murmurada’. Nota-se que, no trecho descrito acima, os grupos tonais se sucedem com tom
1 ou 3, dependendo de se tratar de uma afirmação ou de um enunciado incompleto, que irá ser
completado com o que se diz a seguir. Tessitura e entoação, como se vê, agem
independentemente. A indicação de uma pausa, nesse momento, indica a troca de interlocutor,
expressa também com a expressão “o chefe do departamento”. Sua atitude na conversa vem
expressa através da indicação do contexto: “como se estivesse distraído, depois disse”. A fala
seguinte poderia muito bem ser dita com tom 5, que indica uma afirmação enfática, com a sílaba
tónica saliente em genro (cf. a reprimenda que vem a seguir!). A fala do chefe é interrompida,
sem nenhuma outra indicação, a não ser o próprio comentário de Cipriano Algor: “A meu
pedido, senhor, a meu pedido”. Esse enunciado se destaca do anterior pelo uso de uma tessitura
mais alta, quebrada apenas no vocativo (que tem tessitura mais baixa). Certamente, animado
com o que dizia, Cipriano Algor deve ter acelerado a velocidade de fala, mantido um ritmo
acentual bem marcante e uma tessitura alta, para dar maior importância ao que dizia, em
contraste com o que disse antes, murmurando. Como Cipriano Algor falava com ‘tom de voz
alto’, o chefe continuou seu pensamento interrompido antes, com uma tessitura baixa, para
salientar o contraste e dar maior peso ao seu argumento: “agora já sabe”. Cipriano Algor o
interrompe de novo, usando uma tessitura alta, como antes: “sim senhor, já sei”. Apesar da
interrupção, o chefe continua com seu padrão prosódico anterior. Isso faz com que se distingam
os interlocutores pelo padrão prosódico de cada um. No último grupo tonal dessa fala do chefe
(“e menos ainda vindas de empregados da casa”), o foco (sílaba tónica saliente - acento frasal)
se desloca para a palavra menos, e o tom 1 se torna ‘alto’ (tom 1 secundário - ênfase), formando
um padrão bastante marcado, dando uma chance para Cipriano Algor retomar a sua fala,
seguindo o padrão prosódico anterior. A fala seguinte, do chefe, passa para uma tessitura mais
Page 8
8
alta do que a de Cipriano Algor, com aumento concomitante de volume (voz mais forte,
intensa), com alguma qualidade de voz de reprimenda: “mas foi uma interferência” .
Percebendo que tinha escapado da voz murmurada, planejada antes, Cipriano Algor volta ao
padrão prosódico anterior: “peço desculpa” . A referência a uma outra pausa marca um contexto
para a mudança nas atitudes dos personagens e no rumo da narrativa. O enunciado que segue, na
‘vida real’, não seria ‘falado’, apenas ‘pensado’: “ Que mais me faltará ainda ouvir, pensou o
oleiro angustiado” . No romance esse enunciado, assim como todos os outros, tem que ser lido,
o que faz com que haja um contraste prosódico entre a primeira parte, caracterizada pelo autor
como tendo sido dita com a qualidade de voz de ‘angústia’ (do tipo: tessitura mais alta,
velocidade desacelerando, mudança do foco para a palavra mais, uso possível do tom 5), e a
segunda parte, em que se explicita como foi dito o grupo tonal anterior.
Uma das funções mais importantes da tessitura com relação à organização do discurso
consiste em ligar, em graus de importância equivalentes, trechos do discurso situados
relativamente longe um do outro. Trata-se de uma espécie de função coesiva na estrutura do
discurso, marcada pela tessitura. Isso ocorre muito frequentemente em narrativas e em textos
argumentativos. Por exemplo, depois de contar vários factos, Saramago, na mesma obra citada
acima, começa um capítulo, dizendo: “A partir desse dia, Cipriano Algor só interrompeu o
trabalho na olaria para comer e dormir” (p. 207). A expressão “ a partir desse dia” recebe um
destaque com tessitura mais alta, para indicar que tudo o que foi dito antes ‘acabou’. Expressões
como “Agora,...”, “Então,...”
em início de enunciados têm uma função coesiva, ligando o que
se vai dizer com algo dito antes, em algum momento anterior do texto. O facto de essas
expressões serem ditas com tessitura alta aponta para o texto anterior, separando o que foi dito
antes com o que vai ser dito depois e, ao mesmo tempo, ligando as partes para não perder a
coesão textual.
Mais adiante, na mesma obra de Saramago, outro capítulo começa assim: “Na manhã
seguinte, como tinham decidido, Cipriano Algor levou os bonecos acabados ao Centro.” (p.
265). O texto começa com uma tessitura alta (Na manhã seguinte), fazendo uma separação na
narrativa, com uma referência do tipo anafórico ao que aconteceu antes. Em seguida, passa a ter
uma tessitura baixa para um comentário óbvio, já sabido, portanto, considerado menos
importante (como tinham decidido). A tessitura volta ao nível normal da narrativa, com a
retomada da ação (Cipriano Algor levou os bonecos acabados para o Centro).
Na fala espontânea, essa função coesiva, ou seja, a ligação do que vai ser dito com algo
dito antes, pode acontecer sem a presença de expressões como as mencionadas acima, bastando
para tanto, que o início da fala se coloque numa tessitura alta. O sistema de escrita, todavia, não
pode prescindir, em alguns casos, dessas expressões lexicais ligadas à função coesiva da
tessitura, obrigando o autor a inseri-las, sob pena de perder a ligação efetuada pela tessitura, na
linguagem oral.
4. Conclusão
O presente trabalho pretendeu mostrar, ainda que de maneira inicial, através da análise
de uma possível leitura interpretativa de um texto de José Saramago (por um brasileiro),
algumas das funções da tessitura. Tentou-se, desta forma, privilegiar o estudo desse fenômeno,
dentro da prosódia de nossa língua, já que, dos elementos prosódicos do português, a tessitura
tem sido o mais negligenciado nos estudos fonético-fonológicos. Buscou-se, em primeiro lugar,
uma definição que diferenciasse a tessitura da entoação, uma vez que, por tratarem ambas de
variações na frequência fundamental, em muitos trabalhos, acabam por ser confundidas. Foi
mostrado, no entanto, neste trabalho, através do exemplo considerado, que tessitura e entoação
atuam diferente e independentemente, uma vez que um mesmo contorno entoacional pode ser
realizado em uma tessitura alta ou baixa, de acordo com as intenções do falante. Desta maneira,
foi visto que as alterações de registro podem desempenhar funções expressivas ligadas à
organização do discurso pelo falante, o que significa que o estudo da tessitura tem uma função
importante na determinação do papel dos elementos prosódicos, enquanto organizadores do
contínuo da cadeia sonora e reveladores da estrutura do discurso.
Page 9
9
Notas
1
A freqüência fundamental representa o primeiro harmônico de uma onda periódica composta e é
responsável pela percepção da variação melódica, independentemente do timbre musical ou dos
formantes (Ladefoged, 1962).
2
Para Hyman (1975: 186), as propriedades prosódicas “are best seen as extending over units which can
encompass more than one segment” .
3
Mateus (1996: 195) fornece a seguinte definição para os traços prosódicos: “Os contrastes provocados
nas línguas pelas propriedades do som atrás indicadas - acento, tom, duração - denominam-se traços
prosódicos (ou suprassegmentais) porque não atingem apenas um segmento mas marcam a sílaba na sua
globalidade.”
4
Foram mantidos os realces do original.
5
Vejam-se também os artigos publicados por Bolinger (1972).
6
Há muito, alguns linguistas chamaram a atenção para algumas funções da entoação, como a função
emocional, gramatical, informativa, textual, psicológica (por exemplo, para memorizar números) e
indexativa (marcas de identidade) (cf. Crystal, 1995: 249). Roach (1983: 167) atribui quatro funções à
entoação: atitudinal (que pode ser ‘sequencial’, ‘prosódica’ ou ‘paralinguística’); acentual (ênfase,
contrastiva); gramatical (assertiva, interrogativa, etc.); e discursiva (destaque de aspectos importantes da
mensagem).
7
As noções de tema e rema frequentemente podem ser encontradas, entrelaçando-se com as noções de
tópico e comentário, tópico frasal e tópico discursivo e, principalmente, com a oposição dado/novo. A
respeito da definição da oposição tema/rema e dos termos a ela relacionados, veja-se Massini-Cagliari
(1997: 72-76).
8
Alguns linguistas acham difícil identificar os padrões entoacionais e rítmicos do modelo de Halliday ou,
simplesmente, acham-nos dispensáveis, em favor de outros modelos. Peter Roach (1983: 142) diz: “I find
it hard to see why Halliday chose these particular tones”.
9
As teses de Liberman (1975) e Prince (1975) podem ser consideradas o detonador da Fonologia Não-
Linear. No entanto, pela sua maior difusão, costuma-se indicar o artigo de Liberman & Prince (1977)
como o marco inicial da Fonologia Métrica. A respeito do surgimento da Fonologia Não-Linear como
reação ao modelo gerativo padrão de Chomsky & Halle (1968), veja-se Massini-Cagliari (1999: 71-74).
10
Todo grupo tonal é formado por pés rítmicos que correspondem ao intervalo compreendido entre uma
sílaba tónica (inclusa) até a próxima (excluída). As pausas são contadas com o valor de sílabas
silenciosas.
11
A descrição fonética dos padrões entoacionais apresenta, ainda, outros elementos prosódicos, que não
serão aqui abordados.
12
Os quadros relativos à apresentação dos tons primários e secundários do português foram retirados de
Massini-Cagliari & Cagliari (2001).
13
Desta forma, o papel que Roach (1983: 176) atribui à entoação, talvez ficasse melhor se relacionado à
tessitura: “If we consider how intonation may be studied in relation to discourse, we can identify two
main areas: one of them is the use of intonation to focus the listener’s attention on aspects of the message
that are most important, and the other is concerned with the regulation of conversational behaviour”.
14
Uma maneira fácil de entender o que é tessitura é fazendo uma analogia com os intervalos entre a nota
mais grave e a mais aguda atingidos pelos instrumentos musicais. Um piano pode tocar várias oitavas,
coisa que uma flauta doce não pode.
15
Uma oitava corresponde ao intervalo consonante perfeito entre o primeiro e o oitavo grau de uma
escala musical (escala, por sua vez, é uma série de notas sucessivas, separadas por tons ou semitons; a
escala mais usada na música ocidental é a de sete notas) - Lacerda (1976). A nota mais aguda de uma
oitava corresponde ao dobro da frequência da nota mais grave. Na fala de um homem, uma frequência
fundamental de 70 cps pode representar um tom baixo; 120 cps, um tom médio e 180, um tom alto. Essa
relação entre o que se entende foneticamente por tom alto, médio ou baixo depende da tessitura do
indivíduo e não se apresenta como uma medida espaçada em valores exatamente equidistantes. A
definição desses tons depende da interpretação de padrões gerados pela estrutura da língua. Portanto, são
sempre medidas relativas, quer entre indivíduos, quer para um mesmo indivíduo em situações diferentes.
16
A respeito dos marcadores conversacionais e do processamento do fluxo de informação no discurso
oral dialogado, vejam-se Marcuschi, (1989) e Koch et alii (1990).
17
A ocorrência do tom 63 é mais típica das relativas restritivas. As explicativas costumam ter tipicamente
apenas o tom 1. As orações relativas ‘substantivas’ costumam ter apenas o tom 6. É preciso, entretanto,
enfatizar o fato de as orações relativas, encaixadas ou não, poderem ter outros padrões entoacionais,
sobretudo o tom 1, se final de período, ou tom 3, se lhe segue alguma outra frase. Tem-se notado uma
Page 10
10
grande diferença entre a fala espontânea e a leitura, com relação à ocorrência dos tons entoacionais e,
sobretudo, com relação à tessitura. Na leitura, há uma neutralização generalizada a favor dos tons 1 e 3 e
uma redução drástica na ocorrência de variação de tessitura. Ou seja, ocorre uma espécie de
‘achatamento’ da prosódia na leitura.
18
Ver nota anterior.
19
Na fala espontânea também pode-se encontrar um uso muito reduzido de ‘enfeites’ prosódicos. Uma
conversa calma, em geral, faz um uso mais reduzido dos elementos prosódicos do que uma fala agitada,
nervosa, acalorada.
20
IN
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LINGUISTAS LANÇAM PRIMEIRO ATLAS SONORO BRASILEIRO

Lingüistas lançam primeiro atlas sonoro brasileiro Documento reúne mapas e arquivos de som que retratam diversidade da fala do Pará
O primeiro atlas sonoro brasileiro acaba de ser lançado: apresentado em forma de CD-Rom, o Atlas geo-sociolingüístico do Pará reúne centenas de mapas e arquivos de som que retratam a diversidade da fala dos habitantes daquele estado. O projeto, iniciado em 1996, foi coordenado pelo lingüista Abdelhak Razky e envolveu cerca de dez pesquisadores ligados ao Laboratório de Lingüística da Universidade Federal do Pará (UFPA).
O mapa mostra a representação fonética da palavra 'árvore' da forma como é pronunciada em diferentes cidades do Pará. Clique para ouvir a pronúncia de uma mulher de meia-idade da cidade de Bragança, de um jovem de Cametá e de um homem de meia-idade de Santarém
A equipe percorreu, nos anos 2000 e 2001, 10 zonas urbanas no interior do Pará. Em cada cidade, quatro pessoas foram entrevistas: um homem e uma mulher com idade entre 19 e 33 anos e outro casal entre 40 e 70 anos. Os entrevistados responderam a um extenso questionário padrão, elaborado de forma a levá-los a dizer uma série de palavras. Os lingüistas analisaram 159 vocábulos pronunciados por todos os participantes. "Essa amostragem conseguiu contemplar todos os sons da língua portuguesa", aponta Razky.
Todas as entrevistas feitas para a elaboração do atlas estão disponíveis no CD-Rom. "Um pesquisador interessado pode ouvi-las e fazer sua própria transcrição fonética, de acordo com sua percepção", esclarece. O CD-Rom inclui ainda um software holandês de análise fonética divulgado gratuitamente na internet.
As 'cartas lingüísticas' do atlas apresentam o mapa do Pará com indicações do perfil dos entrevistados, localidade de origem e a transcrição fonética da fala de cada um. O CD-Rom inclui ainda informações históricas sobre cada cidade visitada e uma cópia eletrônica do livro Estudos geo-sociolingüísticos no Estado do Pará, que reúne um resumo de seis dissertações de mestrado ligadas ao projeto.
Razky destaca que o produto pode ser usado como recurso didático no ensino fundamental e médio. "Os professores podem abordar a diversidade das mudanças da fala, o que ajudaria a amenizar os conflitos lingüísticos na nossa sociedade", explica. "Deve-se aprender que não existe certo ou errado, mas diferenças que devem ser respeitadas."
O grupo coordenado por Razky deve atacar agora a segunda fase do projeto. "Pretendemos realizar um estudo em 51 localidades da zona rural, das quais já conseguimos visitar 23", afirma. "A população rural precisa fazer parte do perfil que queremos fazer da fala paraense." A iniciativa faz parte de um projeto maior: o Atlas lingüístico do Brasil, que já tem a Bahia, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul mapeados. Esses atlas regionais, no entanto, foram divulgados apenas na forma impressa.
Os pesquisadores esperam lançar também, ainda em 2004, uma série de oito CD-Roms sobre a fala dos habitantes de outras nove localidades visitadas no Pará. A amostra conterá relatos pessoais de 48 participantes, com 30 minutos cada. "Esse trabalho sociológico e lingüístico contribuirá para o registro histórico da língua portuguesa que possui uma vasta paisagem cultural, tão rica em sons, léxico e gramática", conclui Razky.

O CD-Rom Atlas geo-sociolingüístico do Pará custa R$ 15e pode ser encomendado por e-mail junto a Abdelhak Razky
Renata MoehleckeCiência Hoje On-line15/06/04

O QUE SÃO GLIDES

O que são glides
Introdução
Este trabalho apresenta reflexões sobre o status dos glides no inventário fonêmico do português, tomando como ponto de partida algumas discussões apresentadas por Mattoso Câmara Jr. (1970), Callou; Leite (2000), Cristófaro (2007), Chitoran; Nevis (2007), lingüistas entre os quais há posições teóricas conflitantes quanto ao enquadramento desses elementos fonológicos do português: vogais ou consoantes?
1 - O que são glides
O termo glide, tomado de empréstimo a fonética inglesa, designa os fonemas tradicionalmente chamados, e com uma grande imprecisão, semiconsoantes ou semivogais. Esses fonemas, como [j] de [serju] 'serio', o [w] de [agwa]¹ 'água', constituem uma classe de fonemas como as consoantes e as vogais, caracterizados pelo fato de que não são nem vocálicos nem consonânticos. (DUBOIS. et all, 1993, p 308)
Na lingüística moderna, emprega-se amiúde o termo de soante para designar um tipo de consoante que apresentam o grau de obstáculo mais fraco (nasais, liquidas, vibrantes e glides) e se aproximam das vogais, por oposição as fricativas e as oclusivas chamadas assoantes, que se realizam acusticamente como ruídos. (DUBOIS. et all, 1993, p 561)
2 - Os glides devem ser considerados como vogais ou consoantes?
Há algumas opiniões conflitantes a respeito dos glides no inventário fonêmico do português. Esses elementos fônicos caracterizam-se por serem tratados como semivogais e semiconsoantes, fato esse que faz com que haja divergências no seu tratamento. Assim alguns autores tratam-os como consoantes e outros como vogais. Se considerá-los como consoantes tem-se um inventário fonêmico mais amplo, pois ocorrerá a adição de duas consoantes à tabela fonêmica, a saber, /y/ e /w/. Essa adição dos glides como consoantes afeta a constituição da sílaba, pois em palavras como "pau" /paw/ e "pai" /pay/ teremoso que é chamado de sílaba travada (CVC), assim como ocorre na palavra "paz" /paS/. No entanto, se considerarmos os glides como vogais,tem-se um sistema fonotático (estrutura das sílabas) mais complexo, pois se adicionará o padrão CVV.
A decisão acerca da natureza (vocálica ou consonantal) desses elementos fônicos não é, toda via, algo tão simples. Não devemos prestar atenção apenas à complexidade que se tem no inventário fonêmico ou no sistema fonotático do português. Deve-se aprofundar a discussão e considerar o ambiente onde eles ocorrem e também verificar se podem diferenciar palavras em português, produzindo a chamada diferença fonológica.Os autores que defendem que os glides devem ser considerados como vogais afirmam, como Mattoso Câmara Junior (1970), que, após sílabas travadas (CVC), a tendência é vir o "R forte" como em /iSRa'ɛl/ "Israel" e /'ʒeNRo/"genro", porém não é isso que ocorre em exemplos como "Laura","beira", "touro", "couro", entre outros. Um exemplo contraditório a esses é a palavra "bairro" e suas formas derivadas como "bairrista" (cf. CRISTÓFARO, 2007). Mas a palavra "bairro" e suas formas derivadas não devem ser levadas em conta, pois, a rigor, são ''mal formadas'' em português, ou seja: não obedecem os padrões silábicos. Em face disso, sua divisão silábica ficaria comprometida: se dois "erres" não podem ficar juntos, a única saída será "bair-ro", produzindo um padrão silábico não "cadastrado" no sistema (consoante+vogal+semivogal+consoante)², exceto em palavras no plural cuja coda silábica seja o "s", como exemplo temos a palavra " lençol" cujo plural é "lençóis" a qual a divisão silábica é len + çóis onde a segunda sílaba é do tipo consoante + vogal + semivogal + consoante.
Há uma diferença de extrema importância para que possamos tomar uma posição a respeito dos glides. O /y/ e o /i/ diferenciam palavras (signos lingüísticos) na língua portuguesa, como por exemplo na palavra "sai" /say/ e "saí" /sai/, onde há, além da diferença entre um ditongo e um hiato, há também distinções temporais (presente x passado) e de pessoa (ele x eu) respectivamente. Por isso podemos afirmar que os glides distinguem palavras no português, então devem ser considerados como fonemas.
As vogais são produzidas com o estreitamento da cavidade oral a aproximação do corpo da língua e do palato sem que haja fricção de ar. As vogais se opõem as consoantes por 1) serem acusticamente sons periódicos complexos; 2) constituírem o núcleo de sílabas e sobre elas poder incidir o acento de tom e/ou intensidade. (CALLOU; LEITE, 2000, p 26)
Um glide nunca é o centro de uma sílaba e, conseqüentemente, ele nunca receberá acento. Para formar uma sílaba perfeita em português, as consoante necessitam de que haja
uma vogal com elas. Assim como as consoantes, os glides sempre ocorrem antes ou depois de uma vogal (nos ditongos crescentes e decrescentes, respectivamente) ou então antes e depois, como no caso dos tritongos. Para comprovar isso temos as palavras /tɾaNS'pɔRte/"transporte" cuja divisão silábica é trans + por + te, onde a primeira sílaba, assim como no monossílabo ''quais'', é do padrão CCVCC.
Conclusão
Os sons da língua só são considerados fonemas porquedistinguem palavras. Caso um som não seja distintivo, ele é considerado um fone. Pelo fato de distinguir palavras em português (além de diferenciar ditongo de hiato), os glides devem ser considerados como fonemas no inventário fonêmico do português e acrescentados à tabela fonêmica e, em face dos argumentos apresentados ao longo desta breve exposição – pelo ambiente onde acorrem, por nunca serem o centro da sílaba e sempre "soarem junto" (com + soar), comoas consoantes -, os glides devem ser classificados como consoantes (e não com vogais).
Notas de rodapé
¹Neste trabalho adotei os símbolos /y/ e /w/ para designar os glides em português.
²O item ''divisão silábica'' tem sido amplamente ''explorado'' nas séries iniciais do ensino fundamental como algo pertinente à escrita, de que deveriam dúvidas freqüentes. Há palavras cuja divisão não é pacífica, seja porque há realizações fonéticas ("pronúncias'') diferentes para elas (sem acarretar distinção lingüística, fonológica), seja por se tratar de vocábulos de origem diversa ao latim, cujas estruturas silábicas inexistem (oficialmente) em português (como é o caso de "bairro''), seja porque se toma como base a escrita (o sistema ortográfico do português não contém as letras "y'' e "w'' para grafar as semivogais) para regular variabilidades orais, quando a divisão silábica é um fato da ordem dos sons e fonemas. (cf. MATTOSO CÂMARA JR., 1985; SILVEIRA, 1986).
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SILVEIRA, Regina C. Pagliuchi. Estudos de fonologia portuguesa. São Paulo: Cortez, 1986.

CONSONÂNCIA ENTRE TEORIA E PRÁTICA

CONSONÂNCIA ENTRE TEORIA E PRÁTICA
Norma Seltzer Goldstein (USP)
BAGNO, Marcos. Dramática da Língua Portuguesa. Tradição gramatical, mídia e exclusão social. S Paulo, Ed Loyola 2000 ( 327 p)
BAGNO, Marcos. Português ou Brasileiro? um convite à pesquisa. São Paulo, Parábola Editorial, 2001 ( 182 p)
Fala-se muito na necessidade de estabecer elos entre a universidade e o ensino fundamental e médio. Na prática, nem sempre isso ocorre, permanecendo a academia distanciada dos níveis de ensino de que ela, de certa forma, se retroalimenta. Uma boa escola para jovens certamente teria reflexos nas atividades acadêmicas, tanto de ensino quanto de pesquisa. Contudo, salvo (louváveis) projetos isolados, pouco se vem fazendo nessa direção. Geralmente, os autores de dissertações e teses de mestrado buscam divulgar seus ensaios, enquanto pesquisa acadêmica, sem ampliar a discussão no sentido de propor uma questão crucial: de que modo este trabalho poderia contribuir para o ensino fundamental e médio? De maneira ainda esparsa, estão surgindo alguns pesquisadores conscientes disso, cuja inquietação encontra eco em editoras pequenas, voltadas para nichos específicos de mercado, como o de alguns docentes do ensino fundamental e médio, interessados em atualizar-se e aprimorar a própria formação. Nos últimos dois anos, vêm surgindo algumas tiragens de obras destinadas a professores de LP 1 - Português língua materna- resultantes de pesquisas universitárias. É o caso de Marcos Bagno, doutor em Filologia e Língua Porguesa pela Universidade de São Paulo, cuja extensa pesquisa lingüística torna-se fonte de reflexão e sugestões metodológicas práticas para docentes de LP1.Dado o parentesco entre as duas obras, comento conjuntamente Dramática da língua portuguesa. Tradição gramatical, mídia e exclusão social - resultante da tese de doutorado- e Português ou brasileiro? um convite à pesquisa- conjunto de roteiros de pesquisa a serem desenvolvidos com e por alunos, em contexto escolar- indicados, daqui em diante, por DLP e PB, respectivamente.
No livro resultante da tese, o jogo de palavras do título fornece a primeira pista: uma simples troca de fonemas marca a relação entre o problema lingüístico e o social: dramática / gramática. A mesma ponte reaparece na segunda parte do título, ao correlacionar apego à tradição gramatical e exclusão social. Delineia-se, assim, o eixo condutor da obra que se caracteriza por uma pesquisa lingüística séria, uma reflexão política lúcida e uma linguagem clara e fluente.Em "Primeiras palavras", o autor apresenta DLP como "resultado de uma longa reflexão sobre as concepções de língua e de linguagem na sociedade brasileira", lamentando "a existência e o vigor de um preconceito lingüísitco profundamente arraigado na cultura deste país". O ensaio percorre trilhas sociolingüísticas, movido pela utopia de possibilitar, a cada cidadão brasileiro, a aceitação de seu próprio falar. O leitor, seduzido pelo convite, também passa a sonhar com o dia em que estaremos todos repetindo, com orgulho, o verso da canção "minha pátria é minha língua".Os cinco capítulos do livro tratam de gramática tradicional, da relação entre preconceito e ideologia, da questão da norma culta padrão, provocando o leitor a pensar sobre o papel do lingüista diante dessas questões. Uma parte da argumentação se apóia na análise de exemplos extraídos de um site da internet.Bagno transcreve passagens desse site que exemplificariam a distinção entre língua coloquial e língua formal. Com fundamentação e engenho, Bagno aponta o equívoco embutido na comparação. Ela pretenderia evidenciar a especificidade de cada variedade lingüística, em função da situação específica de comunicação, mas acaba por apresentar uma classificação preconceituosa, já que explicita o valor "positivo" de uma variedade - lingua "escrita, formal, padrão" (sic) - em contraposição ao valor "negativo" da outra - "língua falada, coloquial" (sic). Se, por um lado, o autor do site ilustra o emprego da linguagem "informal", aparentando valorizar esse registro, por outro deixa transparecer seu valor "menor", em relação ao padrão culto de linguagem. Bagno aponta outra falha séria do site, decorrente da inconsistência terminológica, ao misturar, indistintamente, as duas modalidades da língua - a falada e a escrita - e as diversas variedades lingüísticas. Nem sempre a língua falada é "informal", ela também pode ser "culta", mas o site funde as duas categorias, chegando a polarizar, de um lado, o "informal / o falado" e, de outro, o "formal / escrito". Ou seja: onde ficam o formal/falado? E o informal/escrito? Trata-se de problema sério, em página disponível a todos os usuários da internet, induzindo os que o consultam a erros conceituais e terminológicos, além de realimentar o preconceito lingüístico.Bagno propõe uma saída para o ensino: "Sou da opinião de que a disciplina Língua Portuguesa deve conter uma boa qualidade de atividades de pesquisa, que posibilitem ao aluno a produção de seu próprio conhecimento lingüísitco, como arma eficaz contra a reprodução irrefletida e acrítica da doutrina gramatical normativa. Para cada assunto a ser abordado (colocação de pronomes, estratégias de relativização, refência verbal, concordância nominal etc) seria o caso de levantar um corpus o mais diversificado possível para que nele se buscasse apreender as regras das diferentes variedades de língua, a distribuição dos usos de acordo com a modalidade de língua, com o registro, com o gênero de texto etc." ( o. c. p 159).O autor exemplifica esse tipo de proposta, analisando, inicialmente, três textos retirados de jornal, nos quais discute a questão do gênero jornalístico; ou, melhor dizendo, dos "gêneros jornalísticos", no plural. A partir das propostas de Castilho sobre as concepções de linguagem e a de Bortoni-Ricardo para a análise do português do Brasil, a argumentação prossegue, centrada na investigação de cinco fenômenos sintáticos, observados numa série de corpora: 1) estratégias de relativização; 2) retomada anafórica de objeto direto de 3ª pessoa; 3) pronomes sujeito-objeto; 4) pseudopassivas "sintéticas" ou "pronominais"; 5) regências dos verbos em IR e CHEGAR com idéia de movimento. O resultado é um mapeamento de usos, em diferentes variedades, na modalidade falada e na escrita, evidenciando as diversas "línguas" que todos nós utilizamos.O ponto de chegada, prenunciado desde o início, é a constatação da "urgente necessidade de romper com a falsa sinonímia ensino de língua = ensino de gramática, sobretudo quando nessa relação, como já foi demonstrado, gramática nada tem a ver com intuição lingüística do indivíduo enquanto falante nativo de uma língua, nem com a fascinante investigação filosófica das relações do ser humano com sua linguagem e dos seres humanos entre si por meio da linguagem" ( grifos do autor- o.c. p 306). Da "gramática" à "dramática", Bagno descortina os três atos do drama da linguagem: "1º ato: ter o que dizer; 2º ato: querer dizer; 3º ato: poder dizer". Este último, o mais complexo, encenaria toda uma série de exclusões sociais.Citações de Foucault embasam e afunilam a discussão em direção a uma proposta concreta: "Nossa prática deve subordinar a língua à linguagem, a gramática à dramática, fazer da gramática o instrumento para tocar a música da linguagem - justamente o oposto do que se tem feito tradicionalmente até hoje (o.c. p. 311).É provável que o leitor se pergunte: e agora? Como prosseguir meu trabalho como professor de LP1? Embora a obra deixe claro que a resposta a essa questão só vá ser respondida, gradativamente, por cada docente, ao lado de seus discípulos em sala de aula, o segundo livro retoma a discussão, voltando-se agora, diretamente, para a atividade pedagógica. Marcos Bagno, em Português ou Brasileiro? relaciona a teoria à aplicação prática, propondo roteiros de pesquisa destinados à utilização em sala de aula. De modo coerente, o autor aplica sua própria sugestão, "fazendo da gramática um instrumento para tocar a música da linguagem". A epígrafe da obra é uma canção, Plataforma, de João Bosco e Aldir Blanc; os nomes dos capítulos retomam igualmente alusões musicais: 1. Não põe corda no meu bloco; 2. Primeiro o fubá, depois o dendê; 3. Cores que eu não sei o nome; 4. Eu consolo ele, ele me consola; 5. Deixa eu dizer que te amo; 6. Em que se vai trocando as pernas; 7. Quando chegar em Americana, eu não sei o que vai ser; 8; Que sacuda e arrebente o cordão de isolamento".O capítulo inicial trata de uma série de tópicos prévios: gramática tradicional; ciência lingüística; língua falada; conceito de "erro"; norma e variação lingüística, para, a partir delas, propor as questões que preocupam todos os professores de língua materna: "Afinal, o que ensinar na escola? Gramática: sim ou não?" Passo a palavra ao autor: "Toda ciência digna deste nome é um saber em construção, uma obra nunca terminada, um trabalho constante e ininterrupto. Ao contrário da Gramática Tradicional, que acabou se constituindo numa coleção de dogmas, isto é, uma coleção de conceitos que são considerados verdades absolutas e indiscutíveis, a Lingüística, como toda ciência, não pára de questionar suas próprias idéias, não pára de reformular suas teorias. /.../Assim, diante desse impasse -não ensinar a Gramática Tradicional ( porque não científica) nem ensinar as teorias mais recentes ( porque sempre inconclusas e provisórias)- o que nos resta a fazer em sala de aula? O que nos resta a fazer não é nenhum resto, mas simplesmente tudo e só o que temos a fazer: desenvolver a prática da leitura e da escrita, da releitura e da reescrita /.../" ( grifos do A, o.c. p 66)Mas e a gramática tradicional? Ela pode ser ensinada? A resposta é "sim", caso o professor considere isso importante. E vem complementada por uma série de sugestões para instrumentalizar como isso deveria ser feito, levando em conta a variação lingüística e considerando a linguagem como um atividade social, condições para que o aluno assuma uma postura crítica face ao objeto de estudo. A idéia é que alunos e mestres pesquisem juntos a ocorrência de determinados fenômenos num corpus em que figurem textos de língua oral e de língua escrita. A tarefa não é fácil. Além de uma mudança de mentalidade por parte do mestre, ela exige, ainda, tempo e dedicação: "Não basta pedir aos alunos que façam a pesquisa: é fundamental que você também faça tudo o que eles vão fazer. Assim, você ficará sabendo o que eles podem encontrar, identificará os pontos em que pode haver mais dificuldade, reconhecerá a viabilidade ou inviabilidade do projeto. Desse modo, será mais fácil para você. Afinal, para guiar, para orientar alguém, é preciso que este guia conheça bem o caminho." ( grifos do autor o c.p. 75)Em seguida, Bagno propõe alguns roteiros de pesquisa, enfatizando que "a riqueza da pesquisa está na própria pesquisa, no processo de investigação, na exploração do material, na aplicação das teorias, no levantamento das hipóteses. E complementa, declarando-se aberto à continuação do diálogo: "Se, ao longo do trabalho, você sentir falta de alguma coisa que eu tenha deixado escapar, por favor, não deixe de me comunicar! ( idem ibidem).Desde o início, esta resenha enfatizou a importância da aplicação das pesquisas lingüísticas à prática da sala de aula. Existe, no entanto, o risco de que esse processo resulte em propostas "novidadeiras" e "salvadoras", que deixam completamente de lado nossa tradição gramatical. Não é, em absoluto, o caso das obras em análise. Além da ponte entre teoria e prática, Marcos Bagno faz, também a ponte entre tradição e inovação, apoiado em ampla fundamentação bibliográfica. Esse não é seu único mérito. O mais importante talvez seja a postura de pesquisador em eterno processo de aprendizagem, disposto a interagir com seus leitores, para rever e reformular permanentente suas posições. Seria quase desnecessário acrescentar que as propostas do autor, voltadas para a formação de jovens com espírito crítico, estão perfeitamente afinadas com os Parâmetros Curriculares Nacionais e, para nos limitarmos a um Estado, também com as Propostas Curriculares de Língua Portuguesa da Secretaria de Educação do Estado de Sâo Paulo.

ASPECTOS FONOLÓGICOS

Aspectos Fonológicosdo Português Contemporâneo
Ricardo Stavola Cavaliere (UFF e ABF)
Fonética e Fonologia
Não é pacífica na literatura lingüística contemporânea a distinção entre os termos fonética e fonologia. Couber à Lingüística Estruturalista, cujo apogeu permeou grande segmento do século passado, cuidar dessa distinção, embora em tintas pouco nítidas e não raro ofuscadas por opiniões contraditórias. Em tese, cabe à fonética estudar e descrever os sons da linguagem humana, ao passo que à fonologia, também denominada fonêmica pela corrente de estudos norte-americanos, cumpre o estudo dos fonemas, assim entendidos como unidades fonológicas distintivas e abstratas.
Ao pronunciar a palavra tatu, por exemplo, o fonema inicial /t/ pode articular-se mediante contato da língua com os dentes superiores ou com os alvéolos. Também pode o /t/ ser articulado com maior ou menor explosão expiratória, de que resulta a emissão de um /t/ plosivo ou um /t/ oclusivo. Tais diferenças articulatórias certamente resultam em percepções acústicas distintas, ou seja, o som resultante de cada articulação não é exatamente igual ao de outra, mas semelhante distinção não tem qualquer valor significativo para o falante do português. Em todos os caos, seja com /t/ plosivo dental ou com /t/ oclusivo alveolar, o falante julgará estar ouvindo o mesmo som.
A irrelevância dessas variações se deve ao fato de que não têm valor distintivo no quadro geral dos fonemas portugueses, isto é, seja qual for a pronúncia do /t/ acima descrita, para a comunidade de falantes ela se relaciona a uma mesma imagem acústica dotada de valor funcional no sistema fonológica da língua. Imaginemos, por exemplo, que uma pessoa necessite de uma caneta esferográfica para escrever um texto. Poderá servir-se, para tanto, de um conjunto variado de canetas, que se distinguem materialmente por serem mais longas, outra mais macias ou mesmo mais arredondadas. São, pois, canetas distintas do ponto de vista material. Do ponto de vista funcional, entretanto, todas cumprem o mesmo papel, razão por que são entendidas como um único ser em nível mais elevado de abstração. Suas diferenças materiais apresentam-se, assim, irrelevantes aos olhos do escritor.
À fonética tem-se atribuído o papel de estudar os sons da linguagem humana do ponto de vista material ou físico, descrevendo detalhadamente como eles são produzidos e quais são seus efeitos acústicos. A fonologia cuida do papel que tais sons desempenham num dado sistema de uma língua particular: se têm ou não valor distintivo em face de outros sons, se podem ocorrer em qualquer posição silábica ou estão restritos a dada vizinhança fonêmica etc. Por esse motivo, não é plenamente correto falarmos de uma fonética do português, do francês ou do italiano, porém de uma fonologia do português, do francês etc., visto que o estudo dos sons da linguagem humana em seu aspecto físico independe dos sistemas fonológicos a que pertencem.
Percebe-se não haver uniformidade ou distinção clara entre os termos fonética e fonologia na história dos estudos gramaticais brasileiros. Os gramáticos do século XIX, por exemplo, não estabeleciam distinção conceptual entre as denominações, porém mera relação de continência em que fonologia, via de regra, inscrevia-se no amplo campo de investigação abrangido pela fonética.. Considerando irrelevante a distinção entre fonologia e fonética, alguns filólogos optam por uma apresentação mais simplificada da matéria, de tal sorte que se diminuam as seqüências hierárquicas sem qualquer valor individual na descrição vernácula. Essa é a proposta de Alfredo Gomes, cuja Grammatica portugueza (GOMES, 19) auferiu grande sucesso nas aulas de português exatamente por sua feição menos complexa, e, em termos ainda mais radicais, de Said Ali (ALI, 19:15), que chega a considerar a distinção entre fonética e fonologia algo sem qualquer valor prático.
Ramos da fonética
Definida como o estudo dos sons que interessam à linguagem humana, ou do meio fônico lato sensu, a fonética desenvolve sua pesquisa em pelo menos três áreas bem delimitadas: a fonética articulatória, a fonética acústica e a fonética auditiva. A primeira descreve e classifica os sons da fala em face da maneira como são produzidos pelo aparelho fonador. À segunda cabe o estudo das propriedades físicas dos sons produzidos pelo aparelho fonador e do percurso que as ondas sonoras trilham para chegar aos ouvidos do ouvinte. Já a terceira ocupa-se da maneira como os sons da fala são captados pelo aparelho auditivo e interpretados pelo cérebro humano.
Não resta dúvida de que a área da fonética que mais interessa ao lingüista é a da fonética articulatória, já que seu objeto está diretamente vinculado à manifestação da língua em sua materialidade. A fonética acústica, entretanto, tem contribuído significativamente no ensino de línguas estrangeiras, visto que estabelece padrões de percepção dos sons de dada língua pelo ouvido de um falante nativo e de um falante estrangeiro, bem como as razões por que o primeiro é mais capaz do que o segundo na tarefa de identificar os fonemas nas cadeias sonoras das palavras. Considerando que um mesmo fonema jamais será produzido da mesma forma por dois falantes nativos distintos, isto é, que os sons da linguagem humana quando produzidos por diferentes falantes se regem pelo princípio da semelhança, não da identidade, cabe à fonética acústica descrever as diferenças auditivas pertinentes e impertinentes para a perfeita percepção das cadeias sonoras de que se compõem palavras e frases.
A interdependência da fonética acústica e da fonética articulatória parece evidenciar-se em situações extremas em que o desempenho humano em uma das faculdades inerentes, a de produzir e de perceber os sons da fala, parece deteriorar-se em face da ausência da outra. Assim, não é incomum que as pessoas, caso venham a perder a capacidade de ouvir, passem a ter dificuldade de falar. Também se sabe que os recém-nascidos vêm dotados de certa predisposição para concentrar-se em certos sons em detrimento de outros, no processo de desenvolvimento da fala. Em outros termos, o bebê seleciona pelo meio auditivo os sons relevantes para a linguagem humana, fato que confere à fonética acústica relevante papel na investigação sobre a própria natureza das línguas.
O aparelho fonador.
Uma das tarefas da fonética articulatória, uma vez ocupada com a os mecanismos de produção dos sons da fala, está em estudar o aparelho fonador, constituído dos chamados órgãos da fala.
De início, cabe observar que os órgãos que compõem o aparelho fonador servem primariamente a outros aparelhos do organismo humano. Cabe aos pulmões oxigenar o sangue, enquanto órgão do aparelho respiratório, mas também, subsidiariamente, é este órgão que expele a corrente de ar necessária para produzir a voz; já as cordas vocais, que podem parecer a princípio elementos destinados unicamente à produção da fala, na verdade cumprem papel básico de evitar (se fechadas) a passagem de alimentos pela traquéia. Quanto aos demais elementos que participam do aparelho fonador, a maioria situada na boca, como lábios, dentes, língua, etc., evidencia-se que seu papel primacial é como integrantes do aparelho digestivo.
Desta constatação resulta concluir que o homem, no processo evolutivo da espécie, adaptou órgãos dos aparelhos respiratório e digestivo para produzir a fala. Isso prova, inequivocamente, que a capacidade de expressar-se por meio de sons articulados e bastante posterior ao surgimento do homem como animal racional.
Neutralização fonêmica
Sabemos que o conceito mais acatado de fonema está vinculado ao Princípio da Oposição, que devemos à Lingüística estrutural. Com efeito, o fonema só é entendido como entidade autônoma significativa por que se distingue de outro dentro do mesmo sistema fonológico. Assim, o /d/ é um fonema sonoro do português por que a ele opõe-se o correspondente surdo /t/. Há situações, entretanto, em que a distinção entre fonemas deixa de ser um fato relevante para o falante da língua. Tome-se, por exemplo, a palavra paz. A pronúncia dessa palavra nas diferentes regiões geolingüísticas brasileiras varia bastante devido à consoante final: [pAž], [pAš], [pAs]. Verifica-se, pois,. que as consoantes /ž/, /s/ e /š/, em final de sílaba, perdem distinção entre si; a este fato denomina-se neutralização de traços distintivos.
O mesmo ocorre com respeito às vogais átonas finais portuguesas. A pronúncia de rede, por exemplo, pode ser [′Rede] ou [Reďi]. Observe-se que a alternância ente /d/ e /ď/ se dá entre um fonema e um alofone, já que /d/ e /ď/ jamais se distinguem entre si no sistema fonológico do português. Já a alternância entre /e/ e /i/ finais não pode ser atribuída a uma alofonia, visto que constituem fonemas distintos em nossa língua, como se percebe em cedo e sido. Assim, conclui-se que /e/ e /i/ átonos finais sofrem neutralização de traços distintivos, já que suas diferenças articulatórias não são pertinentes nessa posição da cadeia fônica vocabular. O mesmo se pode dizer de /o/ e /u/ átonos finais. Quando, por necessidade de descrição, referimo-nos a todas as possibilidades de pronúncia decorrentes de uma neutralização fonêmica, optamos pela transcrição de um arquifonema, assim entendido como uma entidade abstrata resultante da neutralização. Assim, o arquifonema /S/ resulta da neutralização de /s/, /ž/, /š/ e /z/ finais.
Não se há de confundir entre neutralização fonêmica e inocorrência de um dado fonema na cadeia fônica vocabular. No caso das vogais átonas finais portuguesas, por exemplo, podemos relacionar dois arquifonemas e uma vogal: /I/, /U/ e /A/, os primeiros resultantes, como já se disse, da neutralização de /e/ com /i/ e de /o/ com /u/, respectivamente. Já as vogais /ε/ e //, se átonas, simplesmente não têm registro em sílaba final, tendo em vista o padrão prosódico do português. Por esse motivo, não é certo atribuir a inocorrência de /ε/ e // a um efeito da neutralização, senão a mera impossibilidade de ocorrência.
Harmonização vocálica
Fenômeno similar, não obstante claramente distinto da neutralização fonêmica, é o da harmonização vocálica. A rigor, trata-se de uma tendência de assimilação vocálica tradicional no português, em que uma vogal média pretônica cede espaço à correspondente alta da mesma zona articulatória por influência da vogal tônica alta. É o que ocorre, por exemplo, em vestido, pedido, comprido, que se pronunciam [viš’ťidu], [pi’ďidu], [kũ’pridu], respectivamente. Ao distinguir esses casos dos que se arrolam sob a rubrica da neutralização, Mattoso Câmara (CÂMARA JR., 1970) adverte que a harmonização pode ser evitada para clareza comunicativa: a pronúncia de comprido com /õ/ pretônico impõe-se quando o falante quer distinguir o adjetivo do particípio verbal cumprido. Também ressalva Mattoso Câmara que a média pretônica não cede espaço à alta em palavras derivadas associadas a primitivas em que ela é tônica: rodinho [ro’ďiøu], peludo [pe’ludu], etc. O segundo argumento, decerto, proporciona fundamentação mais consistente, visto que, no que tange à clareza prosódica, também pode o falante ― e freqüentemente o faz ― evitar a neutralização de átonas finais para preservar a clareza do texto: “Eu disse jure [‘žure], não júri”.
Debordamento vocálico.
É comum em hiatos como os de coar, passear, voar, atear que a vogal média pretônica se neutralize com a alta correspondente. Esse tipo de neutralização é denominado “debordamento” por Mattoso Câmara, sob fundamento de que o /i/ e /u/ altos debordam as médias correspondentes, assumindo seu posto na pronúncia distensa. O argumento que sustenta não se tratar aqui de uma neutralização ― de que a média pode impor-se para preservar a distinção do vocábulo ― como já observamos, não procede. Caberia investigar a motivação desse fenômeno, que bem se pode atribuir ao grau elevado de atonicidade nessas mediais que compõe hiato com a, fato que levaria à natural neutralização com as altas correspondentes. Cabe, ainda, observar que em certas palavras, como cear, seara, o debordamento não ocorre. O fato parece ter motivação morfológica, já que o pronome se, usado freqüentemente em posição proclítica, pode resultar num /e/ em hiato com /A/ inicial, como em “se arma” [si’ARma]. Em outros termos, o debordamento em sílaba /se/ seguida de /A/ parece ser um privilégio do clítico por motivos distintivos.
A questão das vogais nasais.
O tratamento atribuído às vogais nasais sempre teve caráter contraditório, que se mantém até os dias atuais, não obstante vários tenham sido os estudos dedicados a esse interessante tema da fonologia portuguesa. De imediato, cumpre distinguir os casos em que o traço de nasalidade tem caráter distintivo daqueles em que não o tem. Assim, na pronúncia corrente do português no Brasil, o /A/ oral pretônico seguido de sílaba iniciada por consoante nasal freqüentemente absorve ou assimila a nasalidade do fonema vizinho, de que resulta uma pronúncia anasalada, como em camisa, banana, caniço, panela etc. Aqui, mais uma vez, o fator morfológico pode interferir em questões fonológicas, visto que nos derivados de palavras com /ã/ tônico a nasalidade parece impor-se como necessária no /A/ pretônico: paninho, der. de pano; canil, der. de cão (cane). Ainda assim, observam-se derivados que não respeitam obrigatoriamente a nasalidade dos primitivos: de cama, temos acamado [akA’madu] ou [akã’madu].
Se considerarmos nasais apenas as vogais cujo traço de nasalidade é distintivo, então haveremos de interpretar os casos acima citados como de mera “nasalização”. Uma outra possível interpretação desse fato seria a de admitir uma neutralização entre /A/ e /ã/ átonos em posição anterior a fonema nasal, com a ressalva da prevalência de /ã/ por influência do fator morfológico. Por fim, considerando-se os traços articulatórios distintivos ou não, haveremos de admitir como vogal nasal qualquer fonema vocálico que tenha o traço da nasalidade.
A questão das nasais já vem provocando controvérsia desde a proposta de classificação dos sons vocálicos pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), trazida ao cenário acadêmico em 1959. Com efeito, a velha nomenclatura prevê uma classificação de vogais segundo a zona de articulação (anterior, média, posterior), o timbre (fechado, aberto, reduzido), a intensidade (tônica, átona e subtônica) e o papel das cavidades bucal e nasal (oral e nasal). O problema é que, ao referir-se genericamente às vogais como orais ou nasais, parte-se de uma pressuposição equivocada de que a nasal nada mais é do que a oral com nasalidade, o que não procede, pelo menos a respeito do /A/.
Com efeito, a vogal tônica de cama, por exemplo, não é um a nasal, no sentido de que se distinguiria da vogal tônica do a oral em calo apenas em face do traço de nasalidade. A rigor, o a dito nasal é uma vogal um pouco mais elevada, igualmente central, que se distingue o a oral, portanto, também em face do timbre. Como no Brasil esse a levemente fechado só se manifesta quando nasal, sua distinção do a absolutamente aberto não é pertinente. Por esse motivo, admite-se hoje que o a nasal não é simplesmente um /A/ oral com traço de nasalidade, porém um alofone do /A/ oral, que se transcreve como /a/, a que se atribui o traço de nasalidade, de que resulta /ã/.
Finalmente, uma interpretação ainda hoje polêmica sobre a natureza dessas vogais, introduzida em nossos estudos fonológicos por Mattoso Câmara, admite que o português não tenha propriamente vogais nasais. Em palavras como compra, lindo, tanque, segundo o grande lingüista fluminense, ocorre uma vogal oral seguida de arquifonema /N/ que se realiza como /m/ diante de consoante labial, /n/ diante de consoante anterior e como um alofone [ñ] diante de consoante posterior. Mattoso sustenta sua tese, sobretudo no fato de que a sílaba com vogal dita nasal se comporta como sílaba travada: além de o a dito nasal não admitir crase, também após sua ocorrência não se realiza /r/ alveolar.