LENINE: MÚSICA E POESIA EM RITMO POPULAR BRASILEIRO
Por Luizete Guimarães Barros
A idéia que suscita este trabalho nasce do fato de que, como professora de línguas, com formação em fonologia, encontro passagens em canções de Lenine que parecem sair das páginas de livros didáticos. E me explico: a fonologia estrutural da língua portuguesa, na sua intenção de descrever as unidades sonoras que compõem o português, costuma combinar palavras em pares, tais como: "graus/grãos", "mau/mão", "pau/pão" em associação que só parece ter cabida na especificidade deste universo de estudo, que dispõe sobre os fonemas da língua por meio de oposições distintivas. Qual não é minha admiração quando tais pares de palavras, - que antes pareciam compor apenas o rol de exemplos do livro Fonética e fonologia do português, de T. Cristófaro Silva - formam a rima de uma das composições de Lenine - "Meu amanhã". Tal música costuma ser anunciada nas rádios com este título único, completado no encarte do CD Na Pressão por "(intuindo o til)". Com este complemento no título, o autor anuncia a base formal de seus versos: a oposição entre fonemas orais e nasais é controvertido assunto da lingüística do português, e alguns gramáticos e lingüistas consideram unidades diferentes, tais com: Bechara (1975: p. 35), Rocha Lima (1972: p. 31-32), em assunto resumido por Vandresen (1975: p. 90). Esta característica deste poema em específico, e outras questões de rima e ritmo são assuntos deste trabalho.
Fonologia
Este texto vê o universo da poesia imbricado ao domínio da fonologia porque certas noções de métrica e versificação têm surgido, em parte, graças às observações sobre a substância sonora da linguagem - área de domínio da lingüística, e "mais particularmente da fonologia", segundo O. Ducrot e T. Todorov (1976: p.230).
A exploração de pares mínimos - recurso proposto pela lingüística formalista para determinar as unidades fonológicas de uma língua que consiste em contrapor palavras cuja diferença reside em um único elemento sonoro - explica a rima de versos como no estribilho: "minha diva, meu divã/ minha manha, meu amanhã".
Este refrão não só apresenta a oposição em termos de nasalização, como também em termos dos gêneros gramaticais que se alternam em feminino e masculino no mesmo verso, a que Ducrot-Todorov chamam de "rima gramatical", pois interferem aí o elemento sonoro e a oposição morfológica. Tal combinação aparece também em dois dos versos seguintes: "Meu fá, minha fã/ a massa e a maçã (...) Meu lá, minha lã", completado pelo verso em que o feminino se repete em: "minha paga, minha pagã", fechando a última estrofe desta poesia dedicada à Anninha: eixo formal e temático da composição. (NR: O nome da musa consta com dois 'n' nesta forma de diminutivo carinhoso no encarte do CD).
Um artigo em inglês, disponível na internet, diz que "'Meu amanhã (intuindo o til)', a slow balance in wich Lenine plays with words in unusual rimes". O contraste de palavras através do traço de nasalidade é recurso explorado na contraposição de ditongos dos versos finais: "O sal e o são /o que é certo, o que é sertão / Meu Tao, meu tão/ Nau de Nassau, minha nação", onde convém assinalar que copio tal estrofe do encarte que acompanha o CD, pois caso confiasse apenas no meu ouvido, transcreveria "meu Tao" - referente ao "Tao"da China - como " Meu tal", em homofonia possível no português de certas regiões do Brasil.
Em versos anteriores a esses, a nasalidade parece mostrar-se o único elemento opositivo, já que a diferença entre o número de sílabas entre os substantivos de "meu velar, minha avelã" se desfaz na crase da pronúncia que une as vogais de "minha avelã", e a supressão do "r" final de palavras como "velar, cantar" compõe um paralelismo de mesma natureza que os anteriores.
Além dos pares mínimos, Lenine se vale de um tipo de rima especial - aquela cuja repetição se dá pela retomada do elemento anterior, acrescido uma sílaba. A similaridade se dá porque uma palavra inclui a outra já proferida, como é o caso dos dois primeiros versos do estribilho de "Meu amanhã", que diz: "Minha meta, minha metade/ Minha seta, minha saudade".
A precisão de uma definição em fonética não aceitaria, suponho, o reducionismo desta explicação, visto que "metade" não contém o mesmo segmento sonoro que "meta", dado que o "e" das duas palavras se opõem pela ligeira alteração de timbre. São fonemas distintos em português, apesar de que a diferença de abertura não invalida a percepção auditiva de similaridade sonora.
A precisão de uma definição em fonética não aceitaria, suponho, o reducionismo desta explicação, visto que "metade" não contém o mesmo segmento sonoro que "meta", dado que o "e" das duas palavras se opõem pela ligeira alteração de timbre. São fonemas distintos em português, apesar de que a diferença de abertura não invalida a percepção auditiva de similaridade sonora.
O foneticista completaria esta impressão, explicando que a diferença de abertura entre os segmentos destas palavras é eqüidistante, e inversamente proporcional. Isto é, a vogal "e" de "meta" é mais aberta que a vogal "e" de "metade", pois há fechamento entre os "e" da primeira para o da segunda palavra. No verso seguinte, há abertura das vogais da primeira para a segunda palavra. Resumindo de outra forma, o fonólogo diria que a altura entre o "e" de "meta" está para "metade" de maneira inversa a que a altura da vogal de "seta" está para a inicial do ditongo de "saudade". Neste caso, o efeito de rima se consegue porque uma das palavras parece estar repetida na subseqüente, com alteração na abertura vocálica.
O ouvido nos faz reconhecer a semelhança sonora entre estes segmentos que se escrevem da mesma forma: nos referimos a "meta" e "metade", que se classifica como "rima visual", segundo o Dicionário das ciências da linguagem, de Ducrot e Todorov (p. 234). Estes autores estabelecem, portanto, que se trata de rima visual palavras que se aproximam pela grafia, ainda que com diferente pronúncia. Embora tal rima seja perfeita do ponto de vista ortográfico, isso invalidaria a percepção de tal fragmento como rima?
Para responder tal indagação, um exame do texto em sua extensão faz com que atente para outra passagem: verso cuja rima interna se enquadra na categoria visual - "Amor em Roma, aroma de romã". Nele as palavras escritas pela mesma letra não correspondem à pronúncia idêntica, segundo lingüistas como Mattoso Camara (1949) para quem o "r" de "Roma" é diferente do "r" de "amor" ou de "aroma". Nesse caso, não há repetição perfeita por dois motivos: porque o mesmo grafema "r" não corresponde ao mesmo fonema, e porque as consoantes internas representadas por "m" e "r" se repetem no fragmento seguinte em posição alterada. Isto faz com que "amor em Roma" seja seguido pelos mesmos segmentos em ordem invertida em "aroma de romã". Qual imagem no espelho, o nome da musa inspiradora, motivo da declaração - "Anna" - se caracteriza pelo fato de ler-se da mesma forma, não importa em que direção se dê a leitura: da direita para a esquerda, ou da esquerda para a direita.
Vale destacar que Ducrot-Todorov (1976: p. 233) recordam que Saussure estabelece que: "a repetição dos sons na poesia (...) obedece ao princípio dos anagramas: os sons ou as letras que compõem um nome próprio encontram-se disseminados no conjunto do poema." Tal citação talvez explique a disseminação de "a"s e de "ã"s nesta canção de amor destinada a Anninha - conforme esclarece a capa do CD Na pressão.
Este CD apresenta "Meu amanhã" como a quarta faixa, e após a última faixa, o disco encerra, depois de longo silêncio, com o grito derradeiro: "Meu mal, minha mão,/ o que é nau, e o que é não/ Meu pau, meu pão,/ Santo Graal e meu grão.", em que a oposição volta a ser a tônica do disco. Os ditongos aqui relacionados, que me pareciam matéria exclusiva de livros de fonologia do português, formam a razão desta obra, escolhida como a faixa representativa do CD. Isso comprova o conhecimento que o autor tem a respeito da língua que utiliza, pois o segundo título proposto à mesma canção - "Intuindo o til" - explica a consciência do fenômeno propulsor da criação. O encarte esclarece que este epílogo se transcreve com as homófonas que corrige a transcrição anterior: "Meu Mao, minha mão,(...)/ o que é now, e o que é não". Isto é, outra vez Lenine remete a um nome próprio chinês - "Mao" - aonde nossa intuição aponta para outra terminação possível: "meu mal".
Se não consultamos a letra não atentaríamos para os vocábulos do chinês ou do inglês inseridos no texto em português. Outra vez nosso ouvido registra "nau", aonde existe "now" e Lenine termina o CD rimando vocábulos do inglês e do português - línguas imbricadas, e característica do movimento popular conhecido como "mangue beat", que tem em Chico Science um de seus expoentes. No nome do líder, a qualidade do hibridismo de mesclar elementos brasileiro e estrangeiro.
Ritmo
A combinação de línguas é explorada também numa das músicas mais tocadas do primeiro CD. Uma das preferidas pelas rádios brasileiras e Prêmio Sharp de Melhor Canção - "A ponte", de Lenine e Lula Queiroga, primeira faixa do CD O dia em que faremos contato - traz palavras em inglês rimadas com português. Nela, por exemplo, o vocábulo "Nagô" abrevia "Na Golden Gate", que rima "ajeite / aceite / cantei-te" com "Empire State", nesta "ponte" que une idiomas, possibilitando transpor terras por meio do transcurso percorrido pela imaginação.
Cabe apontar que a abreviação em "Nagô" para "Na Golden Gate" não atende a princípios nem do inglês, nem do português. Há uma classificação fonológica que divide as línguas de acordo com o ritmo em: silábica e acentual. Línguas silábicas são aquelas em que as sílabas são pronunciadas com a mesma duração, cuja comparação possível com a música permite associá-las ao ritmo staccato que permite a identificação das pausas entre os elementos silábicos segmentais - acrescento que instrumentos como o cravo, por exemplo, emite notas por separado, assim como o ser humano ao tocar o instrumento de línguas de ritmo fortemente silábico. Por outro lado, línguas acentuais se definem por intervalos que comportam diferente número de sílabas, comparável ao ritmo andante, cuja ligação entre os segmentos dificulta a identificação dos limites entre as partes, sendo que notas ligadas, provenientes de um órgão eletrônico, por exemplo, serviria de paralelo a essa entonação. (Chacon, 1998: p. 72)
O inglês é classificado como língua acentual, em oposição ao português - e mais especificamente ao espanhol, línguas tidas como silábicas. Apesar deste recorte didático que facilita a compreensão destas categorias, devo completar que mesmo as línguas silábicas podem ter características acentuais, da mesma forma que um piano pode executar os dois tipos de ritmos. Digo isso para dizer que não reconheço como característica rítmica do inglês nem do português a abreviação de "Na Golden Gate" em "Nagô", como faz a gravação em estudo, porque as duas línguas consideram "golden" como palavra de duas sílabas, cuja primeira é "gol". O inglês considera o caso do "n" silábico para a constituição da segunda sílaba, e o português, por sua vez, reduziria a palavra dissílaba em "gol", ou alteraria a velocidade de pronúncia da segunda sílaba "den". Mas nenhuma destas divisões é ouvida na gravação em exame. A fragmentação pelo corte na segunda sílaba cria uma terceira palavra - "Nagô" - que evoca outra língua, derivada da conjunção das culturas em questão. O hibridismo sonoro aponta "a link between two points (...) the junction, in a same sign, of these two universes - the craftsmanship (...) and the cybernetic" que torna compreensível a afirmação de Lenine: "Cheguei à conclusão que sou um artista bissexto, pois antes de ser intérprete, sou compositor. E só gravo 30% da minha produção. Eu me considero um operário da canção.(...) sou um artesão no meio tecnológico." ("Lenine: um canibal universal guiado pelo instinto", p. 2 - Tom Cardoso - 3/10/2000 - consultado em 15/7/2004 - em http://www.cliquemusic.com.br/br/Servicos/ParaImprimir.asp?Nu Materia=3545)
Rima gramatical
No último CD de Lenine - Falange canibal - aparece uma composição com letra de Lula Queiroga, um de seus parceiros em outras canções, que se pauta na oposição entre os gêneros gramaticais - uma motivação morfológica. Trata-se da faixa 11, "Rosedub (O verbo e a verba)", em que o título traz a oposição masculino/feminino que resume o tema da poesia. A diferença gramatical traz na diferença léxica o confronto dos significados, e cria uma narrativa bem humorada. Incluído como uma das faixas de um CD preparado por Bono Vox - um dos componenetes da banda de rock U2 - contra a dívida externa - pelo projeto Drop the Debt: A Recording for the Canceling of the Third World Debt - que reúne artistas de vários países em desenvolvimento, segundo notícia de Marco Antonio Barbosa, de 18/11/2002 (lido em 15/7/2004, em http://www.cliquemusic.com.br/br/Cybernotas/Cybernotas.asp?Nu_Materia=3832).
Neste caso, a oposição não cria só o tipo de rima, mas constrói o esqueleto da história - o verbo sai para bater papo num bar e a verba paga a conta. "O verbo gastou saliva / de tanto falar para o nada / a verba era fria e calada": assim são definidos os personagens desta comédia melodramática.
Em ritmo caribenho, palavras se repetem qual anagrama, no engraçado conflito vivido pelo casal "verbo e verba", e pelo outro casal "Dolores e dólares", que participam do estribilho final que diz: "Dolores/ dólares/ Ay que dolor me dan los dólares". No primeiro casal, cabe ao elemento masculino gastar, sendo que no segundo, o papel de gastadeira cabe à mulher - Dolores - num jogo de palavras que brinca com os papéis sociais.
Ortografia e pronúncia
A letra de uma música traz a grafia que representa a maneira de falar característica do lugar: "Relampiano", expressão nordestina para "relampejando". Esta canção, de Lenine e Paulo Moska, faixa 8 do CD Na Pressão, traz na simplificação da fala não só o retrato da família brasileira - em "Mãe passando roupa para o pai de agora/ de um outro caçula que ainda vai chegar" - como o retrato das esquinas da cidade com o "neném vendendo drops no sinal pra alguém". Não sei se é proposital o resultado auditivo que tive nas primeiras vezes que escutei tal canção - pensava ouvir "vendendo drogas", dado à rapidez da pronúncia de "drops", às interferências da percussão, ou ao efeito buscado propositadamente pelo autor.
O caráter sincrético da poesia Paulo Moska faz alusão ao universo discursivo latino-americano na simbiose castelhano português de "Hay que endurecer um coração tão fraco" que reconstitui a frase do Che.
Osvaldo Lenine Macedo Pimentel, nascido em 2 de fevereiro de 1959, filho de pai comunista e mãe professora, é autor de poucas letras. Vários letristas são seus parceiros na composição: Lula Queiroga, Paulo Moska, Carlos Rennó, Bráulio Tavares, Paulo César Pinheiro são alguns deles. Mas outro exemplo de canção exclusiva de sua autoria é "Jack soul brasileiro" - primeira faixa do CD Na Pressão - em que os sons das línguas inglês e português se fundem, em música que recria parte da tradição musical do Brasil. Jackson do Pandeiro é relembrado aqui através da homofonia "Já que sou", e a moeda do século XXI atualiza a "canção do sapo" em que o preço pago é "quinhentos reais", nesta que é a faixa mais onomatopéica de todo o CD.
Mangue beat
Zé Celso Martinez Correa em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, no dia 29 de abril de 2004, disse que o golpe de 1964 reprimiu os movimentos culturais brasileiros, e principalmente o de Pernambuco que só renasce com Chico Science e o pessoal do mangue beat.
O material encontrado sobre a produção musical de Lenine costuma associá-lo ao movimento mangue beat, junto a nomes como: Chico Science & Nação Zumbi, Pedro Luís e a Parede, Carlinhos Brown. O texto em inglês agrega outros: Antonio Nóbrega, Mestre Ambrósio e Maracatu Nação Pernambuco. Eu acrescento a estes o nome de Fernanda Abreu, com quem Lenine comparte a acentuada batida hip-hop, e alguns músicos que acompanham a ambos, como o percursionista Marco Suzano, por exemplo.
Antonio Nóbrega, no Roda Viva de 12 de abril de 2004, declara que não conhece bem o pessoal do mangue beat, apesar de os espectadores pensarem na associação entre eles. Nóbrega, ligado ao movimento de Ariano Suassuna, vê a arte popular como o pulmão do mundo, um "manancial diversificado como a biodiversidade da flora brasileira". Com metáforas ecológicas, Antonio Nóbrega fala da arte popular como a volta às origens. O texto em inglês diz que foram necessários anos para que o maracatu - dança de origem africana - pudesse ser aceito no país inteiro e que o "Recife fosse visto como o novo berço da criação musical brasileira", graças ao trabalho dos músicos já citados. "Lenine always knew that 'maracatu' was pop and the only way to make a Brazilian pop was to make a radical MPB (Brazilian Popular Music), going deeply into the roots." Para que o pop seja popular é necessário que o popular se reconheça no pop, esta parece ser a fórmula que faz de Lenine um dos pioneiros do pop, ainda que em entrevista Lenine diz nunca pensar no pop para compor.
E o mesmo texto que traduz "O dia em que faremos contato" por "The day we are going to get in touch" afirma que o título deveria ser revisto e adaptado para "The day we got in touch" - "O dia em que fizemos contato". Esta proposta se baseia na idéia de que esta música de Lenine e Bráulio Tavares evoca heranças ontológicas do samba, como "Ave Maria do morro", revivido em "quem mora lá no morro/ vive perto do espaço sideral", que no original de Herivelto Martins correspondia a "quem mora lá no morro/ já vive pertinho do céu", e "O Morro não Tem Vez", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes - "se derem vez ao morro/ todo o universo vai sambar". O tom e a melodia são recuperados nestas passagens em que poucas palavras originais são modificadas dos textos do passado. Nesta música, no entanto, Lenine recria um mundo de foguetes e espaço sideral que se imiscui no cotidiano da favela. O imaginário fantasioso do passado se transfere para um mundo mítico que está para existir - razão de não concordarmos com a revisão do título, proposto em inglês.
Sobre sua vida pessoal, Lenine esclarece: "O meu nome foi dado em homenagem ao Lênin (revolucionário e estadista russo). Meu pai era um ferrenho defensor do regime comunista", em entrevista a Tom Cardoso, de 3/10/2000. Nesta página também se anuncia que Lenine grava um disco junto com um quinteto de música erudita em Moscou. Ele diz que não sabe nem pronunciar o nome dos músicos, nem do quinteto, mas reconhece na interpretação do grupo russo similaridades com a música de Dorival Caymmi.
A projeção internacional de Lenine faz com que ele seja posto como uma ligação evolutiva de gente como: Chico Science, Fernanda Abreu, Chelpa Ferro - grupo de artistas plásticos e percusionistas que fizeram uma incursão propondo fazer percussão quebrando um carro a marteladas. O resultado é desastroso porque o público invade o local e continua a depredação do carro e é preciso intervir para conter a fúria da multidão. Chelpa Ferro também teve Chico Neves, o mesmo produtor de O dia em que faremos contato, como o produtor de seus discos.
E com essas reflexões finalizo este artigo que tem a intenção de introduzir o tema da música popular brasileira ao ambiente acadêmico, fazendo que os sons da linguagem produzidos por rádio, televisão, e demais meios de comunicação também sejam temas considerados no universo universitário, assim como a métrica, rima e ritmo das línguas são assuntos concernentes à fonologia.
Referências bibliográficas
Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora, 1977, 2 v..CHACON, Lourenço. Ritmo da escrita - uma organização do heterogêneo da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. São Paulo: Editora Nacional, 1975.MATTOSO CAMARA JR., Joaquim. Para o estudo de uma fonêmica portuguesa. Rio de Janeiro, Organizações Simões. 1953 [1949]. ROCHA LIMA, Carlos Henrique. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1972.DUCROT, Oswald; TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da linguagem. Lisboa: Dom Quixote, 1976.SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e fonologia do português - roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 1999.VANDRESEN, Paulino. O vocalismo em português: implicações teóricas. Revista Brasileira de Lingüística. p. 80- 103., 1975.
Referências fonográficas
CDs de Lenine: O dia em que faremos contato (1997)Na pressão (1999)Falange canibal (2002)
Referências de internet
http://www.cotonete.iol.pt/quiosque/artistas_home.asp?id=1501http://www.cliquemusic.com.br/br/Servicos/ParaImprimir.asp?Nu Materia=3545 - http://www.cliquemusic.com.br/br/Cybernotas/Cybernotas.asp?Nu_Materia=3832http://www.cliquemusic.com.br/br/Cybernotas/Cybernotas.asp?Nu_Materia=843http://www.lenine.hpg.ig.com.br/ http://geraldofreire.uol.com.br/biografia_lenine.htm http://www.latitudemusic.com/lenine/
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
A LINGUAGEM
Introdução
1. A linguagem
Falantes de qualquer língua fazem reflexões sobre o uso e a forma da
linguagem que utilizam. Estes falantes são capazes de fazer observações quanto
ao “sotaque” e às “palavras diferentes” utilizadas por um outro falante. Qual o
falante que não se lembra de ter um dia discutido o “jeito diferente de falar” de
uma pessoa que seja de uma outra região geográfica? Pode-se também determinar
se o falante é estrangeiro e muitas vezes precisar o país de origem daquele falante.
Qualquer indivíduo pode “falar sobre” a linguagem e discutir aspectos relacionados
às propriedades das línguas que conhece. Isto faz parte do “conhecimento comum”
das pessoas. Contudo, há um ramo da ciência cujo objeto de estudo é a linguagem.
A lingüística é a ciência que investiga os fenômenos relacionados à linguagem
e que busca determinar os princípios e as características que regulam as estruturas
das línguas. Nas próximas páginas apresentamos ao leitor os principais termos
técnicos da lingüística que são adotados neste livro. Pretendemos também indicar
o objeto de estudo da lingüística e apontar áreas de trabalho que necessitam de
profissionais com conhecimentos lingüísticos, especialmente nas áreas de fonética
e fonologia.
Sabemos que falar uma determinada língua implica um conhecimento que
certamente transcende o escopo puramente lingüístico. Quando duas pessoas
falantes de uma mesma língua se encontram e passam a interagir lingüisticamente,
certamente se dá uma interação ampla em que cada uma das pessoas envolvidas
passa a criar uma imagem da outra pessoa. Podemos identificar se a pessoa é
falante nativo daquela língua. Um falante nativo é um indivíduo que aprendeu
aquela língua desde criança e a tem como língua materna ou primeira língua.
Caso classifiquemos o falante como sendo nativo, podemos afirmar se tal pessoa
partilha da mesma variante regional daquela língua. Não precisamos nem mesmo
ver um falante para determinar a sua idade ou sexo, e talvez seu grau de educação.
Isto pode ser facilmente atestado quando atendemos a um telefonema. Podemos
também precisar se o falante é um estrangeiro que tem a língua em questão
como segunda língua. Na grande maioria dos casos, falantes de uma segunda
língua têm características de sua língua materna transpostas para a língua
aprendida posteriormente. Tem-se portanto o “sotaque de estrangeiro” com
características particulares de línguas específicas (como “sotaque” de americano,
japonês, alemão, italiano, etc.).
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Para procedermos à análise de uma língua devemos delimitar a variante a ser
investigada. Idealmente devemos definir parâmetros lingüísticos e não-lingüísticos,
buscando constituir uma comunidade de fala homogênea. Uma comunidade de
fala consiste de um grupo de falantes que compartilham de um conjunto específico
de princípios subjacentes ao comportamento lingüístico. Após definir-se a
comunidade de fala a ser analisada passa-se, então, à coleta de dados que irão
formar o corpus. O corpus fornece o material lingüístico a ser analisado. Figueiredo
(1994) discute aspectos interessantes relacionados à coleta de dados e à seleção
de informantes.
Falantes de qualquer língua prestigiam ou marginalizam certas variantes
regionais (ou pelo menos não as discriminam), a partir da maneira pela qual as
seqüências sonoras são pronunciadas. Assim, determinamos variantes de prestígio
e variantes estigmatizadas. Algumas variantes podem ser consideradas neutras do
ponto de vista de prestígio. Temos em qualquer língua as chamadas variantes padrão
e variantes não-padrão. Os princípios que regulam as propriedades das variantes
padrão e não-padrão geralmente extrapolam critérios puramente lingüísticos. Na
maioria das vezes o que se determina como sendo uma variante padrão relaciona-se
à classe social de prestígio e a um grau relativamente alto de educação formal dos
falantes. Variantes não-padrão geralmente desviam-se destes parâmetros.
Vale dizer que as características das variantes padrão e não-padrão nem sempre
relacionam-se ao que é previsto pela gramática tradicional como correto. No
português de Belo Horizonte, por exemplo, a terminação “-ndo” das formas de
gerúndio é pronunciada como “-no”: “comeno, fazeno, quereno, dançano, vendeno,
etc”. Note que a redução de “-ndo” para “-no” ocorre somente nas formas de
gerúndio. A forma verbal “(eu) vendo” não permite a redução de “-ndo” para
“-no”, e uma sentença como “*Eu veno banana” não ocorre. Fazemos uso do
asterisco antes de um determinado exemplo – como no caso de “*Eu veno banana”
– com o objetivo de explicitar que tal exemplo é excluído ou não ocorre. Este
recurso é adotado ao longo deste livro.
Vale ressaltar que a redução de “-ndo” para “-no” nas formas de gerúndio em
Belo Horizonte (e em outras regiões do país) desvia-se do esperado como padrão.
Contudo, sendo o fenômeno amplamente difundido entre os falantes, temos que a
redução de gerúndio faz parte da variante padrão em Belo Horizonte.
Um exemplo de variante não-padrão pode ser ilustrado com as formas verbais
de primeira pessoa do plural. Em vários dialetos do português brasileiro tem-se
duas formas pronominais para a primeira pessoa do plural: “nós” e “a gente”.
Cada uma destas formas requer uma forma verbal distinta: “nós gostamos” e “a
gente gosta”. Ambas as formas são aceitas como parte da variante padrão em
vários dialetos. O que caracteriza a variante não-padrão é a troca de formas de
pessoa com a forma verbal: “nós gosta” e “a gente gostamos”.
Há ainda casos de lexicalização. Simplificando podemos dizer que o léxico
consiste de um conjunto de itens lexicais e de suas respectivas propriedades rele-
Introdução
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vantes para a organização da gramática. Falantes do português têm, por
exemplo, uma entrada lexical como “planeta”, cujas propriedades listadas podem
ser: substantivo, masculino. Cada palavra é associada a uma entrada lexical. No
caso da palavra “planeta” todos os falantes têm a mesma entrada lexical e as
mesmas propriedades específicas: substantivo, masculino. Há contudo exemplos
como “guaraná” ou “telefonema” que não apresentam a mesma entrada lexical
para todos os falantes. Para alguns falantes há a especificação de que estas palavras
são masculinas – “o guaraná, o telefonema” – e para outros falantes há a
especificação de que estas palavras são femininas – “a guaraná, a telefonema”.
Dizemos neste caso que para as palavras “guaraná, telefonema” o gênero é
especificado lexicalmente podendo ter duas alternativas possíveis: masculino ou
feminino. Não há uma opção melhor-pior ou certa-errada. Dizemos que a
lexicalização deste item para os falantes determina a forma a ser adotada. No caso
de “guaraná, telefonema” temos que a mesma entrada lexical tem propriedades
específicas diferentes.
Há um outro caso de lexicalização que envolve palavras que têm a entrada
lexical diferente e as mesmas propriedades específicas. Para alguns falantes as
formas “vassoura, assovio” são substantivos sendo “vassoura” feminino e “assovio”
masculino. Para outros falantes as formas “vassoura, assovio” não existem. As
formas correspondentes com o mesmo significado e as mesmas propriedades
específicas são: “bassoura, assobio”. Estas formas são substantivos sendo
“bassoura” feminino e “assobio” masculino. Pode ser que um falante tenha as
entradas lexicais “vassoura” e “assobio”. O falante faz uso da forma registrada
em seu léxico. Finalmente, há casos de uma palavra apresentar duas formas
lexicalizadas diferentes para o mesmo falante. Um exemplo é a palavra “ruim”
que para inúmeros falantes do português pode ser pronunciada como “ruím” ~
“rúim” (o símbolo ~ indica a alternância entre formas).
Podemos concluir que não há variante melhor ou pior de uma língua. Há
variantes de prestígio, estigmatizadas ou neutras. Para definir as propriedades
a serem adotadas em sua variedade pessoal um falante conta com várias fontes
de informação lingüística e não-lingüística de outros falantes. Mesmo que a
seleção não se dê conscientemente, definem-se opções e caracterizam-se assim
as particularidades da fala de um indivíduo: ou seja um idioleto. O que é interessante
é que embora todo e qualquer indivíduo tenha características específicas
em sua fala, há uma enorme porção compartilhada com os outros indivíduos
e definem-se assim os dialetos ou variantes de uma língua. Consideremos
a seguir algumas variantes não-lingüísticas que deixam marcas na organização
lingüística.
A fala do homem e da mulher por exemplo se faz marcar na organização
lingüística. Temos variantes de sexo (masculino ou feminino). No português
mineiro observamos que o uso do diminutivo é recorrente na fala feminina: “Olha
que gracinha aquele vestidinho amarelinho!” Parece difícil imaginar um homem
Introdução
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dizendo o mesmo enunciado. Geralmente, na fala masculina observa-se com menos
freqüência o uso do diminutivo. No caso do português, quando ocorre a variante
de sexo, esta é expressa em termos de freqüência de uso. Não há em português
marcas gramaticais, palavras específicas ou padrões de entoação que sejam somente
utilizados por falantes de um único sexo. Contudo, isto ocorre em algumas línguas.
O japonês pode ser tomado como exemplo. A língua japonesa apresenta as variantes
masculina, feminina e neutra. Um exemplo que marca a diferença gramatical entre
estas três variantes de sexo é o uso da partícula que segue um substantivo: na fala
masculina é “da”; na fala feminina é “yo” e na fala neutra é “desu yo”. Várias
outras marcas de sexo podem ser observadas em japonês.
Contamos também com variantes etárias. Note que pessoas mais idosas,
por exemplo, são mais propensas a pronunciar o r final das formas de infinitivo
dos verbos (cf. “cantar”), ou os s plurais de substantivos (“os meninos”). Jovens
tendem a omitir estes sons nestes contextos (cf. “cantá” e “os menino”).
Qualquer pessoa está ciente de variantes formais e variantes informais de
sua língua. Estas variantes são estilísticas. Claro que namorar ou brincar com os
filhos envolve o uso de uma variante diferente daquela utilizada em um encontro
formal em uma entrevista de emprego ou numa Corte de Justiça.
Fazer uso da linguagem certamente leva-nos a compartilhar de princípios
sociais e lingüísticos. Estes princípios são determinados sem nenhum encontro
específico dos falantes para tal finalidade ou de uma lei ou decreto criados
especificamente para este fim. Entretanto, tais princípios são compartilhados pela
comunidade em questão e são parte do universo dinâmico e passíveis de mudanças
a cada instante. Certamente, a intuição de falante nativo contribui para a seleção
da variante a ser usada em cada contexto. Em outras palavras sabemos o que falar,
para quem, como, quando e onde.
Portanto, ao empreendermos uma análise lingüística devemos considerar
parâmetros lingüísticos e não-lingüísticos. Dentre os fatores não-lingüísticos
ressaltamos: região geográfica, faixa etária, gênero (masculino, feminino, neutro),
estilo (formal, não-formal), grau de instrução, classe social.
Faremos uso do termo variante para caracterizar as propriedades
lingüísticas compartilhadas por um grupo específico de falantes. Temos, assim,
variantes etárias, variantes de sexo, variantes geográficas (como por exemplo a
variante de Belo Horizonte), etc. O termo dialeto é também utilizado como
sinônimo de variante. Ao referirmos à fala específica de um indivíduo adotamos
o termo idioleto. As propriedades particulares da fala de um indivíduo
caracterizam seu idioleto.
Gostaríamos de ressaltar que toda e qualquer variante de uma língua é
adequada lingüisticamente e é inapropriado dizer que há variantes piores ou
melhores. Sugerimos que o leitor faça o exercício abaixo com o objetivo de refletir
sobre a sua variedade lingüística pessoal.
Introdução
15
Exercício 1
1.1. Procure um colega de turma (ou um amigo) que seja de uma região diferente
da sua e liste cinco palavras que vocês pronunciam de maneira diferente. Indique
as regiões consideradas. Identifique a letra (ou letras) correspondentes ao
som (ou sons) que marcam esta diferença.
1.2. Como você categoriza a sua variedade lingüística individual em termos
comparativos com outras variedades do português? Tente comparar a sua variante
com outras que você considera de prestígio, estigmatizadas e neutras.
Compare a sua seleção com a de um colega e discuta os fatores que levaram a
diferenças.
1.3. Aponte um aspecto do português que marque a variação lingüística entre
faixas etárias diferentes. Ilustre com exemplos.
Ao lingüista compete a tarefa de formular explicações sobre o mecanismo
subjacente à linguagem. Tal tarefa, em última instância, consiste da formalização
da gramática de uma determinada língua. Entendemos que uma gramática deve
explicitar os princípios e as características da língua analisada. Tal proposta deve
explicar todos os enunciados possíveis de ocorrer naquela língua e também excluir
enunciados que não sejam atestados. Note que excluímos neste livro referência à
gramática enquanto um volume que lista técnicas para a análise de sentenças em
termos de suas partes (como sujeito, predicado, etc.). O termo gramática é
tradicionalmente utilizado em referência às gramáticas prescritivas ou normativas.
A gramática prescritiva ou gramática normativa explicita as regras
determinadas para uma língua qualquer. Contudo, é basicamente impossível
encontrar um falante que faça uso de todas as regras gramaticais prescritas, sem
violações. Há méritos nas gramáticas normativas, sobretudo quanto ao
estabelecimento dos padrões que são compartilhados pelos falantes. Entretanto, a
consulta a uma gramática normativa deve ser feita criticamente, avaliando-se as
particularidades da linguagem utilizada pelos falantes. Um exemplo no português
brasileiro é o uso do futuro simples: “Eu buscarei o livro amanhã”. Para uma
grande maioria de falantes do português brasileiro o futuro simples não ocorre na
língua falada. Em seu lugar ocorre o futuro composto: “Eu vou buscar o livro
amanhã”. Note, contudo, que o futuro simples é utilizado na linguagem escrita e
em algumas variantes do português brasileiro (e certamente no português europeu).
Faz-se, portanto, pertinente registrar a norma que prescreve o uso do futuro simples.
De posse desta informação falantes podem fazer uso apropriado do futuro simples
se lhes for necessário.
Temos também a gramática descritiva que tem por objetivo descrever as
observações lingüísticas atestadas entre os falantes de uma determinada língua.
Sem prescrever normas ou definir padrões em termos de julgamento de corretoincorreto,
busca-se documentar uma língua tal como ela se manifesta no momento
Introdução
16
da descrição. Podemos dizer que no caso do futuro simples uma gramática descritiva
deve documentar a sua ausência no português falado de vários dialetos e registrar
suas características nas variantes em que ele ocorre. Tais gramáticas são formuladas
com o apoio teórico da lingüística. (ver Perini (1995)).
Exercício 2
Discuta com um exemplo do português a diferença entre a gramática prescritiva
(ou normativa) e a gramática descritiva.
Uma descrição lingüística pode ter um caráter diacrônico ou sincrônico. A
lingüística diacrônica, que é também chamada lingüística histórica, analisa a
linguagem e suas mutações durante um determinado período. Neste caso explicita-se
o período a ser considerado e o material lingüístico a ser adotado na análise. Para
análises diacrônicas do sistema sonoro do português ver Williams (1975), Mattos
e Silva (1991) e Tessyer (1997). A lingüística sincrônica investiga as propriedades
lingüísticas de uma determinada língua em seu estágio evolutivo atual. Deve-se
explicitar a comunidade de fala observada e as condições da coleta do corpus a ser
adotado na análise.
No início desta introdução definimos a lingüística como sendo a ciência que
investiga os fenômenos relacionados à linguagem e que busca determinar os
princípios e as características que regulam as estruturas das línguas. Aceitando-se
que a lingüística investiga a linguagem humana, tentemos, então, delimitar mais
especificamente o seu objeto de estudo. Discutimos brevemente a seguir as
propostas de Sausurre e Chomsky.
A proposta de Sausurre (1916) é de cunho estruturalista e tem como mérito
explicitar o objeto de estudo da lingüística de maneira clara e objetiva. A leitura
deste trabalho – denominado “Curso de Lingüística Geral” – é essencial para os
iniciantes em lingüística. Sausurre propõe a dicotomia entre língua e fala. A língua
constitui um sistema lingüístico compartilhado por todos os falantes da língua em
questão. A fala expressa as idiossincrasias particulares da língua utilizada por
cada falante. O lingüista busca seu material para análise na fala. Coleta-se um
corpus e busca-se definir e descrever um sistema lingüístico – ou seja, a língua – a
partir da análise das particularidades individuais e das semelhanças compartilhadas
pelos indivíduos. Portanto, o sistema a ser definido e descrito pelo lingüista constitui
a língua. A dicotomia entre língua-fala estabelece o objeto de estudo da lingüística:
a língua. Tal objeto é investigado a partir de material proveniente da fala.
Chomsky (1965 e publicações subseqüentes) inova a ciência da linguagem por
associar o evento lingüístico à mente em termos psicológicos ao propor a Gramática
Gerativa. A Gramática Gerativa – ou Gramática Transformacional – contribuiu
para a mudança de foco teórico e metodológico da lingüística do século XX. Perini
Introdução
17
(1976) discute a proposta inicial de Chomsky a partir de exemplos do português. A
proposta teórica gerativa assume que à lingüística interessa o estudo da competência.
A competência consiste do conhecimento subjacente e internalizado que o falante
tem de sua língua (semelhante a língua para Sausurre). O uso que o falante faz de
sua língua é denominado desempenho. O desempenho relaciona-se ao que Sausurre
denominou fala. A grande diferença teórica entre língua-competência e faladesempenho
pauta-se no argumento de Chomsky de que o conhecimento lingüístico
do falante (em termos de competência) transcende qualquer corpus. Os falantes têm
um conhecimento ilimitado de sua língua ao criarem e reconhecerem enunciados
completamente novos e ao serem capazes de identificar erros de desempenho. A
intuição do falante nativo de uma língua é a referência para definir-se os parâmetros
gramaticais (em termos de estruturas aceitáveis naquela língua). A análise lingüística,
segundo Chomsky, deve descrever as regras que governam a estrutura da competência.
Chomsky argumenta que a lingüística pode contribuir para a compreensão da natureza
da organização da mente humana [(cf. por exemplo Chomsky (1986,1992)].
Um outro aspecto importante da proposta teórica de Chomsky é a postulação
de diferentes níveis da gramática e a inter-relação entre eles. O esquema abaixo
expressa tal proposta.
Gramática
/ \
Fonologia Sintaxe Semântica
Os níveis básicos de representação assumidos são fonologia, sintaxe e
semântica. A fonologia estabelece os princípios que regulam a estrutura sonora
das línguas, caracterizando as seqüências de sons permitidas e excluídas na língua
em questão. A sintaxe analisa o mecanismo subjacente à estrutura gramatical,
definindo a organização dos constituintes internos das sentenças e estabelecendo
a relação entre tais constituintes. A semântica estuda a relação entre conteúdo e
significado. Sugiro que o leitor escolha e consulte um livro de introdução à
lingüística e faça o exercício abaixo.
Exercício 3
3.1. Qual é o objeto de estudo da lingüística? Justifique a sua resposta.
3.2. Explique os objetivos dos seguintes níveis da gramática: fonologia, sintaxe
e Semântica. Indique um tópico abordado na análise do português para cada um
destes níveis. Dê exemplos.
A análise lingüística requer que se observe, descreva e, idealmente, explique
os fenômenos atestados. A observação de um fenômeno pode ser feita de vários
Introdução
18
ângulos, fornecendo-se assim diversas formas de interpretação. Geralmente a maneira
de observação assumida é decorrente dos pressupostos teóricos e metodológicos
adotados na descrição. A descrição de qualquer fenômeno deve ser pautada em uma
teoria que regule os princípios de tal descrição. A explicação dos fenômenos
observados e descritos se dá a partir da fundamentação teórica adotada. É essencial
que qualquer análise adote um modelo teórico e que tal proposta seja adotada
integralmente (embora com criticidade!). Teorias diferentes possuem premissas
diferentes e a combinação de teorias deve ser feita cuidadosamente. Sem o devido
cuidado, a mescla de modelos teóricos pode incorrer na criação de uma teoria nova
sem pressupostos teóricos e metodológicos que sejam coerentes. Ao analisar qualquer
material, o cientista depara-se com fatos que porventura podem não ter sido
considerados anteriormente e pode ter, então, que complementar um modelo teórico.
Contribui-se, assim, para com o progresso da ciência. Pode-se também sugerir que
um determinado aspecto de um modelo teórico deva ser alterado a partir de evidências
da análise. Teorias devem ser vistas como recursos a serem utilizados e alterados se
for necessário.
Além de não haver língua melhor ou pior, não há línguas primitivas ou mais
evoluídas. Toda língua permite a expressão de qualquer conceito. Caso seja
necessário incorpora-se vocabulário novo ampliando-se o léxico da língua em
questão. Isto faz parte do caráter evolutivo das línguas. Todas as línguas mudam
continuamente.
Precisar exatamente as fronteiras geográficas de uma determinada língua
pode muitas vezes ser difícil. Ao viajarmos de Portugal à Espanha passando pela
Galícia não perceberemos nenhuma mudança abrupta do ponto de vista lingüístico.
Contudo, se sairmos de Portugal e viajarmos diretamente à Espanha identificaremos
as características do português falado em Portugal como bastante distintas do espanhol
falado na Espanha. O mesmo fenômeno pode ser observado em regiões de
fronteira do Brasil com outros países da América do Sul. O português e o espanhol
da fronteira tem várias características comuns. Portanto, definir uma língua ou
um dialeto transcende o caráter puramente lingüístico. Muitas vezes fatores
políticos e sociais têm forte influência nas delimitações geográficas das línguas.
Línguas que se desenvolvem sem interferência formal externa são chamadas
línguas naturais. O português é uma língua natural por evoluir de acordo com
parâmetros gerados pela própria língua a partir do uso feito pelos falantes. Há
também línguas artificiais (também chamadas línguas auxiliares). Uma língua
artificial é uma língua inventada com o propósito específico de comunicação ou
para fins de linguagem computacional. O esperanto é geralmente a língua artificial
mais difundida (criada em 1887 pelo polonês Ludwig Lazarus Zamenhof). O léxico
de tal língua foi construído com influência de línguas da Europa ocidental e há
influência de línguas eslavas na sintaxe e na ortografia.
O português é classificado como pertencendo a família de línguas românicas
do tronco indo-europeu. Estima-se que há aproximadamente 160 milhões de
Introdução
19
falantes [(cf. Crystal (1995)]. O português é língua oficial e majoritária no Brasil,
em Portugal e nas ilhas atlânticas da Madeira, dos Açores e de São Miguel. Alguns
países da África, cuja colonização foi feita por Portugal, têm o português como
língua oficial embora, em conjunto, as línguas nativas sejam majoritárias. Dentre
estes destacamos Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e
Príncipe. Na Ásia o português é falado em Macau, Damão, Diu Goa e na Oceânia
o português é falado em Timor Leste.
Há ainda as chamadas línguas crioulas que são derivadas do português. Tais
línguas surgiram como línguas francas com o propósito de permitir o comércio
entre falantes do português e de outras línguas. Criou-se então uma língua distinta
baseada no português e na(s) língua(s) nativa(s). Em seu estágio inicial tal língua é
denominada pidgin. Ao ter falantes nativos e adquirir um status dinâmico de língua
natural, tal língua passa a ser denominada crioulo [cf. Holm (1988) e Couto (1995)].
Há crioulos baseados em outras línguas além do português (como, por exemplo,
francês, inglês, etc). Dentre os crioulos derivados do português que se encontram
na África temos o da ilha de Cabo Verde, os das ilhas do golfo da Guiné (São
Tomé, Príncipe e Ano Bom), o da Guiné-Bissau e o de Casamance (no Senegal).
Na Ásia temos os crioulos de Malaca (na Malásia), de Macau (em Hong Kong), do
Srilanca (em Vaipim e Baticaloa) e na Índia temos crioulos em Chaul, Korlai,
Tellicherry, Cananor e Cochim. Na Oceânia há o crioulo de Tugu (perto de Jacarta).
Exercício 4
Consulte um atlas e identifique as áreas em que se falam o português e os crioulos
baseados na língua portuguesa.
Neste livro tratamos da organização do sistema sonoro com ênfase na
descrição do português brasileiro. Referência a outras variedades do português e a
outras línguas se dá quando não podemos exemplificar um determinado fenômeno
ou um certo aspecto teórico com exemplos do português brasileiro.
Tratamos do sistema sonoro do português do ponto de vista prático e teórico.
O objetivo básico deste livro é fornecer ao leitor o instrumental necessário para a
caracterização de sua fala. Pretende-se também fomentar o interesse pelos estudos
fonológicos. Este livro se divide em três partes: Fonética, Fonêmica e Modelos
Fonológicos. A primeira parte, intitulada Fonética, é dedicada ao estudo da fonética
articulatória aplicada ao português. Tratamos dos parâmetros envolvidos na
articulação dos segmentos vocálicos e consonantais e da organização de tais
segmentos na estrutura silábica. Espera-se que ao fazer os exercícios que
acompanham o texto o leitor identifique as características articulatórias específicas
dos segmentos consonantais e vocálicos que ocorrem em seu idioleto, descrevendo
assim, a sua variedade lingüística individual. Como conclusão temos que as
Introdução
20
respostas a vários exercícios da parte de Fonética podem diferir de uma pessoa
para outra. A segunda parte, intitulada Fonêmica, apresenta os princípios teóricos
e metodológicos da análise fonêmica. O leitor deve fazer os exercícios e postular
um sistema fonêmico para o português. Tal sistema é idêntico para todos os falantes
do português (sendo correlato ao sistema da língua proposto por Sausurre). As
particularidades da fala de cada indivíduo são expressas na análise de cada idioleto.
Finalmente, a terceira parte que é intitulada Modelos Fonológicos, apresenta uma
visão da trajetória pós-estruturalista da análise do componente sonoro: a fonologia.
Apontamos os princípios gerais de cada modelo e indicamos referências
bibliográficas primárias. Quando possível fornecemos bibliografia em português
e referências de análises que demonstrem a aplicabilidade de um determinado
modelo a dados da língua portuguesa. Sugerimos ainda uma série de tópicos teóricos
e aplicados que podem potencialmente gerar trabalhos de monografia, dissertaçtes
de mestrado ou teses de doutorado.
Pretendemos, portanto, introduzir o leitor ao estudo do componente sonoro
da linguagem com ênfase no português brasileiro. Não se espera qualquer
conhecimento prévio e assume-se que ao concluir a leitura e exercícios propostos
o leitor deve ser capaz de avaliar as características de sua fala e de outros falantes.
Espera-se também que o leitor possa discutir os pressupostos teóricos da análise
fonêmica e avaliar criticamente aspectos controvertidos do sistema sonoro do
português. Com a discussão apresentada na parte final deste livro espera-se
contribuir para que o leitor amplie seus conhecimentos teóricos dos vários modelos
fonológicos.
Para finalizar, apontamos áreas de trabalho que requerem profissionais com
formação em lingüística e mais especificamente nas áreas de fonética e fonologia.
2. Áreas de trabalho
Lingüística: O teórico da linguagem busca explicar os mecanismos subjacentes aos
sistemas lingüísticos. A compreensão dos sistemas sonoros das línguas, bem como a
relação destes sistemas com os demais componentes da gramática (como morfologia,
sintaxe, semântica) consistem no trabalho do pesquisador. Teóricos da linguagem
podem investigar um determinado aspecto da linguagem do ponto de vista sincrônico
ou podem empreender uma pesquisa de um aspecto diacrônico da língua escolhida.
Formação: Graduação em Letras e Lingüística e pós-graduação em áreas afins.
Ensino de língua materna: Ao conhecer em detalhes a estrutura sonora da língua
portuguesa, o profissional pode avaliar problemas enfrentados por estudantes e formular
propostas para solucioná-los. Tal conhecimento é sobretudo valioso aos alfabetizadores
e professores de português. Formação: Curso Normal (segundo grau) e Graduação
em Letras – português.
Introdução
21
Ensino de língua estrangeira: O professor de língua estrangeira deve conhecer bem
a língua que ensina e ser capaz de compará-la ao português. A comparação permite
avaliar problemas de interferência lingüística de uma língua na outra e formular
propostas para bloquear tal interferência. Formação: Graduação em Letras – português
e outra língua.
Planejamento lingüístico-social: A variedade lingüística em um país com a dimensão
territorial do Brasil impõe desafios. Em áreas com grande migração nacional deparase
com as diferenças lingüísticas entre o educador e os educandos. Muitas vezes
alunos com excelente potencial são excluídos do sistema educacional devido ao fato
de sua fala desviar da norma prescrita. A exclusão ocorre às vezes na mesma região
geográfica sendo que educador e educando compartilham de variedades lingüísticas
diferentes e problemas até mesmo de inteligibilidade podem surgir. Cabe ao planejador
educacional avaliar situações de conflito e propor alternativas para os problemas
existentes. Formação: Graduação em Letras, Pedagogia, Sociologia e Assistência
Social. Pós-graduação em áreas afins com pesquisa específica em planejamento.
Tradução e interpretação: A tradução e interpretação tornam-se áreas de trabalho
muito relevantes no mundo globalizante em que vivemos. Tradutores necessitam
conhecer os sistemas sonoros das línguas com que trabalham para explicar aspectos
que muitas vezes são opacos em textos escritos (a tradução de poesias e canções é
um caso explícito). Para o intérprete, o conhecimento dos sistemas sonoros das línguas
com que trabalha é fundamental para que o mínimo de incompreensão incorra durante
uma sessão de trabalho. Formação: Graduação em Letras, Tradução e pós-graduação
em áreas afins.
Dramaturgia: A expressão oral tem um papel fundamental na dramaturgia. Pense
por exemplo que um ator/atriz às vezes desempenha um papel cujo personagem tem
um sotaque diferente do seu. Colaboração profissional entre atores e profissionais
que trabalham com a linguagem se faz necessária. O lingüista pode também ensinar
aos atores o melhor meio de utilizar os mecanismos que permitam o uso pleno das
partes do corpo envolvidas na linguagem. Formação: Graduação em Letras, Teatro
e Escolas de Dramaturgia.
Fonoaudiologia: O profissional que trabalha com aspectos relacionados à patologia
da fala é o fonoaudiólogo. Este profissional deve conhecer bem os aspectos
articulatórios e acústicos envolvidos na produção da fala e também ser capaz de
avaliar a organização fonológica do sistema da língua em questão. Aspectos como a
gagueira ou a “troca de sons” na fala são tratados por fonoaudiólogos ou terapeutas
da fala. Formação: Graduação em Fonoaudiologia e pós-graduação em áreas afins
(como Lingüística, por exemplo).
Linguagem de surdo-mudo: Os sistemas de comunicação de pessoas que não escutam
ou que não falam têm uma complexidade gramatical específica e em princípio estão
sujeitos a mudanças lingüísticas semelhantes às que ocorrem nas línguas naturais. Há
vários sistemas de sinais utilizados por mudos. Alguns surdos podem utilizar a
linguagem oral se adequadamente orientados por profissionais. Formação:
Introdução
22
Graduação em Letras e áreas afins. Também o desenvolvimento de pesquisas em
cursos de pós-graduação em áreas afins (como a Lingüística, por exemplo).
Lingüística computacional: Um dos grandes desafios da ciência computacional é
encontrar correlatos acústicos da fala que sejam conversíveis em sinais digitais. Muito
tem sido desenvolvido nesta área nos últimos anos. Um exemplo da relação lingüísticacomputação
é a possibilidade de se obter e passar informações por telefone entre um
ser humano e um computador (via telefonia, por exemplo). Ao definir-se os aspectos
acústicos e articulatórios da língua e seu sistema fonológico, pode-se aperfeiçoar
mecanismos já existentes. Desafios são impostos sobretudo na área da sintaxe e
semântica. Formação: Graduação em Computação, Física e Lingüística e pósgraduação
em áreas afins.
Ciência da telecomunicação: A transmissão da fala em termos físicos impõe desafios
para a ciência. O som deve ser transmitido nitidamente para que não se perca conteúdo
de informação. A transmissão dos meios de comunicação – como rádio e televisão –
depende de pesquisa nesta área. Obter-se um meio eficaz, rápido e econômico de
transmitir a fala são ambições desta área de pesquisa. Formação: Graduação em
Computação, Física e Lingüística e pós-graduação em áreas afins.
Zoo-Biologia: Definir os parâmetros envolvidos na comunicação animal e caracterizar
a organização dos sistemas lingüísticos animais são tópicos de pesquisa na área de
zoo-biologia. Linguagens de chimpanzés, golfinhos, baleias e abelhas são relativamente
bem estudadas. Faz-se relevante caracterizar as relações de comunicação entre
diversos membros de uma mesma espécie em diferentes regiões do planeta. Formação:
Graduação em Lingüística, Biologia, Zootecnia e pós-graduação em áreas afins.
Lingüística forense: A fala de um indivíduo apresenta características específicas e
únicas. Estudos têm sido realizados para caracterizar as particularidades da fala
individual e definir os parâmetros do que corresponde à “impressão digital” da fala.
Espera-se que o progresso nesta área de pesquisa permita a utilização de evidências
da fala em tribunais. Formação: Graduação em Lingüística com complementação
das áreas de Física e Direito. Pós-graduação em áreas afins.
Lingüística indígena: Temos hoje aproximadamente 120 línguas indígenas faladas
em todo o território brasileiro. Destas, apenas umas poucas foram amplamente
estudadas. Do ponto de vista teórico o estudo destas línguas permite a ampliação do
conhecimento dos mecanismos que regulam as línguas naturais. Do ponto de vista
prático registra-se tecnicamente a língua nativa que pode ser eventualmente utilizada
em projetos educacionais se for de interesse da comunidade. Formação: Graduação
em Lingüística, Letras, Antropologia e pós-graduação em áreas afins.
Introdução
1. A linguagem
Falantes de qualquer língua fazem reflexões sobre o uso e a forma da
linguagem que utilizam. Estes falantes são capazes de fazer observações quanto
ao “sotaque” e às “palavras diferentes” utilizadas por um outro falante. Qual o
falante que não se lembra de ter um dia discutido o “jeito diferente de falar” de
uma pessoa que seja de uma outra região geográfica? Pode-se também determinar
se o falante é estrangeiro e muitas vezes precisar o país de origem daquele falante.
Qualquer indivíduo pode “falar sobre” a linguagem e discutir aspectos relacionados
às propriedades das línguas que conhece. Isto faz parte do “conhecimento comum”
das pessoas. Contudo, há um ramo da ciência cujo objeto de estudo é a linguagem.
A lingüística é a ciência que investiga os fenômenos relacionados à linguagem
e que busca determinar os princípios e as características que regulam as estruturas
das línguas. Nas próximas páginas apresentamos ao leitor os principais termos
técnicos da lingüística que são adotados neste livro. Pretendemos também indicar
o objeto de estudo da lingüística e apontar áreas de trabalho que necessitam de
profissionais com conhecimentos lingüísticos, especialmente nas áreas de fonética
e fonologia.
Sabemos que falar uma determinada língua implica um conhecimento que
certamente transcende o escopo puramente lingüístico. Quando duas pessoas
falantes de uma mesma língua se encontram e passam a interagir lingüisticamente,
certamente se dá uma interação ampla em que cada uma das pessoas envolvidas
passa a criar uma imagem da outra pessoa. Podemos identificar se a pessoa é
falante nativo daquela língua. Um falante nativo é um indivíduo que aprendeu
aquela língua desde criança e a tem como língua materna ou primeira língua.
Caso classifiquemos o falante como sendo nativo, podemos afirmar se tal pessoa
partilha da mesma variante regional daquela língua. Não precisamos nem mesmo
ver um falante para determinar a sua idade ou sexo, e talvez seu grau de educação.
Isto pode ser facilmente atestado quando atendemos a um telefonema. Podemos
também precisar se o falante é um estrangeiro que tem a língua em questão
como segunda língua. Na grande maioria dos casos, falantes de uma segunda
língua têm características de sua língua materna transpostas para a língua
aprendida posteriormente. Tem-se portanto o “sotaque de estrangeiro” com
características particulares de línguas específicas (como “sotaque” de americano,
japonês, alemão, italiano, etc.).
12
Para procedermos à análise de uma língua devemos delimitar a variante a ser
investigada. Idealmente devemos definir parâmetros lingüísticos e não-lingüísticos,
buscando constituir uma comunidade de fala homogênea. Uma comunidade de
fala consiste de um grupo de falantes que compartilham de um conjunto específico
de princípios subjacentes ao comportamento lingüístico. Após definir-se a
comunidade de fala a ser analisada passa-se, então, à coleta de dados que irão
formar o corpus. O corpus fornece o material lingüístico a ser analisado. Figueiredo
(1994) discute aspectos interessantes relacionados à coleta de dados e à seleção
de informantes.
Falantes de qualquer língua prestigiam ou marginalizam certas variantes
regionais (ou pelo menos não as discriminam), a partir da maneira pela qual as
seqüências sonoras são pronunciadas. Assim, determinamos variantes de prestígio
e variantes estigmatizadas. Algumas variantes podem ser consideradas neutras do
ponto de vista de prestígio. Temos em qualquer língua as chamadas variantes padrão
e variantes não-padrão. Os princípios que regulam as propriedades das variantes
padrão e não-padrão geralmente extrapolam critérios puramente lingüísticos. Na
maioria das vezes o que se determina como sendo uma variante padrão relaciona-se
à classe social de prestígio e a um grau relativamente alto de educação formal dos
falantes. Variantes não-padrão geralmente desviam-se destes parâmetros.
Vale dizer que as características das variantes padrão e não-padrão nem sempre
relacionam-se ao que é previsto pela gramática tradicional como correto. No
português de Belo Horizonte, por exemplo, a terminação “-ndo” das formas de
gerúndio é pronunciada como “-no”: “comeno, fazeno, quereno, dançano, vendeno,
etc”. Note que a redução de “-ndo” para “-no” ocorre somente nas formas de
gerúndio. A forma verbal “(eu) vendo” não permite a redução de “-ndo” para
“-no”, e uma sentença como “*Eu veno banana” não ocorre. Fazemos uso do
asterisco antes de um determinado exemplo – como no caso de “*Eu veno banana”
– com o objetivo de explicitar que tal exemplo é excluído ou não ocorre. Este
recurso é adotado ao longo deste livro.
Vale ressaltar que a redução de “-ndo” para “-no” nas formas de gerúndio em
Belo Horizonte (e em outras regiões do país) desvia-se do esperado como padrão.
Contudo, sendo o fenômeno amplamente difundido entre os falantes, temos que a
redução de gerúndio faz parte da variante padrão em Belo Horizonte.
Um exemplo de variante não-padrão pode ser ilustrado com as formas verbais
de primeira pessoa do plural. Em vários dialetos do português brasileiro tem-se
duas formas pronominais para a primeira pessoa do plural: “nós” e “a gente”.
Cada uma destas formas requer uma forma verbal distinta: “nós gostamos” e “a
gente gosta”. Ambas as formas são aceitas como parte da variante padrão em
vários dialetos. O que caracteriza a variante não-padrão é a troca de formas de
pessoa com a forma verbal: “nós gosta” e “a gente gostamos”.
Há ainda casos de lexicalização. Simplificando podemos dizer que o léxico
consiste de um conjunto de itens lexicais e de suas respectivas propriedades rele-
Introdução
13
vantes para a organização da gramática. Falantes do português têm, por
exemplo, uma entrada lexical como “planeta”, cujas propriedades listadas podem
ser: substantivo, masculino. Cada palavra é associada a uma entrada lexical. No
caso da palavra “planeta” todos os falantes têm a mesma entrada lexical e as
mesmas propriedades específicas: substantivo, masculino. Há contudo exemplos
como “guaraná” ou “telefonema” que não apresentam a mesma entrada lexical
para todos os falantes. Para alguns falantes há a especificação de que estas palavras
são masculinas – “o guaraná, o telefonema” – e para outros falantes há a
especificação de que estas palavras são femininas – “a guaraná, a telefonema”.
Dizemos neste caso que para as palavras “guaraná, telefonema” o gênero é
especificado lexicalmente podendo ter duas alternativas possíveis: masculino ou
feminino. Não há uma opção melhor-pior ou certa-errada. Dizemos que a
lexicalização deste item para os falantes determina a forma a ser adotada. No caso
de “guaraná, telefonema” temos que a mesma entrada lexical tem propriedades
específicas diferentes.
Há um outro caso de lexicalização que envolve palavras que têm a entrada
lexical diferente e as mesmas propriedades específicas. Para alguns falantes as
formas “vassoura, assovio” são substantivos sendo “vassoura” feminino e “assovio”
masculino. Para outros falantes as formas “vassoura, assovio” não existem. As
formas correspondentes com o mesmo significado e as mesmas propriedades
específicas são: “bassoura, assobio”. Estas formas são substantivos sendo
“bassoura” feminino e “assobio” masculino. Pode ser que um falante tenha as
entradas lexicais “vassoura” e “assobio”. O falante faz uso da forma registrada
em seu léxico. Finalmente, há casos de uma palavra apresentar duas formas
lexicalizadas diferentes para o mesmo falante. Um exemplo é a palavra “ruim”
que para inúmeros falantes do português pode ser pronunciada como “ruím” ~
“rúim” (o símbolo ~ indica a alternância entre formas).
Podemos concluir que não há variante melhor ou pior de uma língua. Há
variantes de prestígio, estigmatizadas ou neutras. Para definir as propriedades
a serem adotadas em sua variedade pessoal um falante conta com várias fontes
de informação lingüística e não-lingüística de outros falantes. Mesmo que a
seleção não se dê conscientemente, definem-se opções e caracterizam-se assim
as particularidades da fala de um indivíduo: ou seja um idioleto. O que é interessante
é que embora todo e qualquer indivíduo tenha características específicas
em sua fala, há uma enorme porção compartilhada com os outros indivíduos
e definem-se assim os dialetos ou variantes de uma língua. Consideremos
a seguir algumas variantes não-lingüísticas que deixam marcas na organização
lingüística.
A fala do homem e da mulher por exemplo se faz marcar na organização
lingüística. Temos variantes de sexo (masculino ou feminino). No português
mineiro observamos que o uso do diminutivo é recorrente na fala feminina: “Olha
que gracinha aquele vestidinho amarelinho!” Parece difícil imaginar um homem
Introdução
14
dizendo o mesmo enunciado. Geralmente, na fala masculina observa-se com menos
freqüência o uso do diminutivo. No caso do português, quando ocorre a variante
de sexo, esta é expressa em termos de freqüência de uso. Não há em português
marcas gramaticais, palavras específicas ou padrões de entoação que sejam somente
utilizados por falantes de um único sexo. Contudo, isto ocorre em algumas línguas.
O japonês pode ser tomado como exemplo. A língua japonesa apresenta as variantes
masculina, feminina e neutra. Um exemplo que marca a diferença gramatical entre
estas três variantes de sexo é o uso da partícula que segue um substantivo: na fala
masculina é “da”; na fala feminina é “yo” e na fala neutra é “desu yo”. Várias
outras marcas de sexo podem ser observadas em japonês.
Contamos também com variantes etárias. Note que pessoas mais idosas,
por exemplo, são mais propensas a pronunciar o r final das formas de infinitivo
dos verbos (cf. “cantar”), ou os s plurais de substantivos (“os meninos”). Jovens
tendem a omitir estes sons nestes contextos (cf. “cantá” e “os menino”).
Qualquer pessoa está ciente de variantes formais e variantes informais de
sua língua. Estas variantes são estilísticas. Claro que namorar ou brincar com os
filhos envolve o uso de uma variante diferente daquela utilizada em um encontro
formal em uma entrevista de emprego ou numa Corte de Justiça.
Fazer uso da linguagem certamente leva-nos a compartilhar de princípios
sociais e lingüísticos. Estes princípios são determinados sem nenhum encontro
específico dos falantes para tal finalidade ou de uma lei ou decreto criados
especificamente para este fim. Entretanto, tais princípios são compartilhados pela
comunidade em questão e são parte do universo dinâmico e passíveis de mudanças
a cada instante. Certamente, a intuição de falante nativo contribui para a seleção
da variante a ser usada em cada contexto. Em outras palavras sabemos o que falar,
para quem, como, quando e onde.
Portanto, ao empreendermos uma análise lingüística devemos considerar
parâmetros lingüísticos e não-lingüísticos. Dentre os fatores não-lingüísticos
ressaltamos: região geográfica, faixa etária, gênero (masculino, feminino, neutro),
estilo (formal, não-formal), grau de instrução, classe social.
Faremos uso do termo variante para caracterizar as propriedades
lingüísticas compartilhadas por um grupo específico de falantes. Temos, assim,
variantes etárias, variantes de sexo, variantes geográficas (como por exemplo a
variante de Belo Horizonte), etc. O termo dialeto é também utilizado como
sinônimo de variante. Ao referirmos à fala específica de um indivíduo adotamos
o termo idioleto. As propriedades particulares da fala de um indivíduo
caracterizam seu idioleto.
Gostaríamos de ressaltar que toda e qualquer variante de uma língua é
adequada lingüisticamente e é inapropriado dizer que há variantes piores ou
melhores. Sugerimos que o leitor faça o exercício abaixo com o objetivo de refletir
sobre a sua variedade lingüística pessoal.
Introdução
15
Exercício 1
1.1. Procure um colega de turma (ou um amigo) que seja de uma região diferente
da sua e liste cinco palavras que vocês pronunciam de maneira diferente. Indique
as regiões consideradas. Identifique a letra (ou letras) correspondentes ao
som (ou sons) que marcam esta diferença.
1.2. Como você categoriza a sua variedade lingüística individual em termos
comparativos com outras variedades do português? Tente comparar a sua variante
com outras que você considera de prestígio, estigmatizadas e neutras.
Compare a sua seleção com a de um colega e discuta os fatores que levaram a
diferenças.
1.3. Aponte um aspecto do português que marque a variação lingüística entre
faixas etárias diferentes. Ilustre com exemplos.
Ao lingüista compete a tarefa de formular explicações sobre o mecanismo
subjacente à linguagem. Tal tarefa, em última instância, consiste da formalização
da gramática de uma determinada língua. Entendemos que uma gramática deve
explicitar os princípios e as características da língua analisada. Tal proposta deve
explicar todos os enunciados possíveis de ocorrer naquela língua e também excluir
enunciados que não sejam atestados. Note que excluímos neste livro referência à
gramática enquanto um volume que lista técnicas para a análise de sentenças em
termos de suas partes (como sujeito, predicado, etc.). O termo gramática é
tradicionalmente utilizado em referência às gramáticas prescritivas ou normativas.
A gramática prescritiva ou gramática normativa explicita as regras
determinadas para uma língua qualquer. Contudo, é basicamente impossível
encontrar um falante que faça uso de todas as regras gramaticais prescritas, sem
violações. Há méritos nas gramáticas normativas, sobretudo quanto ao
estabelecimento dos padrões que são compartilhados pelos falantes. Entretanto, a
consulta a uma gramática normativa deve ser feita criticamente, avaliando-se as
particularidades da linguagem utilizada pelos falantes. Um exemplo no português
brasileiro é o uso do futuro simples: “Eu buscarei o livro amanhã”. Para uma
grande maioria de falantes do português brasileiro o futuro simples não ocorre na
língua falada. Em seu lugar ocorre o futuro composto: “Eu vou buscar o livro
amanhã”. Note, contudo, que o futuro simples é utilizado na linguagem escrita e
em algumas variantes do português brasileiro (e certamente no português europeu).
Faz-se, portanto, pertinente registrar a norma que prescreve o uso do futuro simples.
De posse desta informação falantes podem fazer uso apropriado do futuro simples
se lhes for necessário.
Temos também a gramática descritiva que tem por objetivo descrever as
observações lingüísticas atestadas entre os falantes de uma determinada língua.
Sem prescrever normas ou definir padrões em termos de julgamento de corretoincorreto,
busca-se documentar uma língua tal como ela se manifesta no momento
Introdução
16
da descrição. Podemos dizer que no caso do futuro simples uma gramática descritiva
deve documentar a sua ausência no português falado de vários dialetos e registrar
suas características nas variantes em que ele ocorre. Tais gramáticas são formuladas
com o apoio teórico da lingüística. (ver Perini (1995)).
Exercício 2
Discuta com um exemplo do português a diferença entre a gramática prescritiva
(ou normativa) e a gramática descritiva.
Uma descrição lingüística pode ter um caráter diacrônico ou sincrônico. A
lingüística diacrônica, que é também chamada lingüística histórica, analisa a
linguagem e suas mutações durante um determinado período. Neste caso explicita-se
o período a ser considerado e o material lingüístico a ser adotado na análise. Para
análises diacrônicas do sistema sonoro do português ver Williams (1975), Mattos
e Silva (1991) e Tessyer (1997). A lingüística sincrônica investiga as propriedades
lingüísticas de uma determinada língua em seu estágio evolutivo atual. Deve-se
explicitar a comunidade de fala observada e as condições da coleta do corpus a ser
adotado na análise.
No início desta introdução definimos a lingüística como sendo a ciência que
investiga os fenômenos relacionados à linguagem e que busca determinar os
princípios e as características que regulam as estruturas das línguas. Aceitando-se
que a lingüística investiga a linguagem humana, tentemos, então, delimitar mais
especificamente o seu objeto de estudo. Discutimos brevemente a seguir as
propostas de Sausurre e Chomsky.
A proposta de Sausurre (1916) é de cunho estruturalista e tem como mérito
explicitar o objeto de estudo da lingüística de maneira clara e objetiva. A leitura
deste trabalho – denominado “Curso de Lingüística Geral” – é essencial para os
iniciantes em lingüística. Sausurre propõe a dicotomia entre língua e fala. A língua
constitui um sistema lingüístico compartilhado por todos os falantes da língua em
questão. A fala expressa as idiossincrasias particulares da língua utilizada por
cada falante. O lingüista busca seu material para análise na fala. Coleta-se um
corpus e busca-se definir e descrever um sistema lingüístico – ou seja, a língua – a
partir da análise das particularidades individuais e das semelhanças compartilhadas
pelos indivíduos. Portanto, o sistema a ser definido e descrito pelo lingüista constitui
a língua. A dicotomia entre língua-fala estabelece o objeto de estudo da lingüística:
a língua. Tal objeto é investigado a partir de material proveniente da fala.
Chomsky (1965 e publicações subseqüentes) inova a ciência da linguagem por
associar o evento lingüístico à mente em termos psicológicos ao propor a Gramática
Gerativa. A Gramática Gerativa – ou Gramática Transformacional – contribuiu
para a mudança de foco teórico e metodológico da lingüística do século XX. Perini
Introdução
17
(1976) discute a proposta inicial de Chomsky a partir de exemplos do português. A
proposta teórica gerativa assume que à lingüística interessa o estudo da competência.
A competência consiste do conhecimento subjacente e internalizado que o falante
tem de sua língua (semelhante a língua para Sausurre). O uso que o falante faz de
sua língua é denominado desempenho. O desempenho relaciona-se ao que Sausurre
denominou fala. A grande diferença teórica entre língua-competência e faladesempenho
pauta-se no argumento de Chomsky de que o conhecimento lingüístico
do falante (em termos de competência) transcende qualquer corpus. Os falantes têm
um conhecimento ilimitado de sua língua ao criarem e reconhecerem enunciados
completamente novos e ao serem capazes de identificar erros de desempenho. A
intuição do falante nativo de uma língua é a referência para definir-se os parâmetros
gramaticais (em termos de estruturas aceitáveis naquela língua). A análise lingüística,
segundo Chomsky, deve descrever as regras que governam a estrutura da competência.
Chomsky argumenta que a lingüística pode contribuir para a compreensão da natureza
da organização da mente humana [(cf. por exemplo Chomsky (1986,1992)].
Um outro aspecto importante da proposta teórica de Chomsky é a postulação
de diferentes níveis da gramática e a inter-relação entre eles. O esquema abaixo
expressa tal proposta.
Gramática
/ \
Fonologia Sintaxe Semântica
Os níveis básicos de representação assumidos são fonologia, sintaxe e
semântica. A fonologia estabelece os princípios que regulam a estrutura sonora
das línguas, caracterizando as seqüências de sons permitidas e excluídas na língua
em questão. A sintaxe analisa o mecanismo subjacente à estrutura gramatical,
definindo a organização dos constituintes internos das sentenças e estabelecendo
a relação entre tais constituintes. A semântica estuda a relação entre conteúdo e
significado. Sugiro que o leitor escolha e consulte um livro de introdução à
lingüística e faça o exercício abaixo.
Exercício 3
3.1. Qual é o objeto de estudo da lingüística? Justifique a sua resposta.
3.2. Explique os objetivos dos seguintes níveis da gramática: fonologia, sintaxe
e Semântica. Indique um tópico abordado na análise do português para cada um
destes níveis. Dê exemplos.
A análise lingüística requer que se observe, descreva e, idealmente, explique
os fenômenos atestados. A observação de um fenômeno pode ser feita de vários
Introdução
18
ângulos, fornecendo-se assim diversas formas de interpretação. Geralmente a maneira
de observação assumida é decorrente dos pressupostos teóricos e metodológicos
adotados na descrição. A descrição de qualquer fenômeno deve ser pautada em uma
teoria que regule os princípios de tal descrição. A explicação dos fenômenos
observados e descritos se dá a partir da fundamentação teórica adotada. É essencial
que qualquer análise adote um modelo teórico e que tal proposta seja adotada
integralmente (embora com criticidade!). Teorias diferentes possuem premissas
diferentes e a combinação de teorias deve ser feita cuidadosamente. Sem o devido
cuidado, a mescla de modelos teóricos pode incorrer na criação de uma teoria nova
sem pressupostos teóricos e metodológicos que sejam coerentes. Ao analisar qualquer
material, o cientista depara-se com fatos que porventura podem não ter sido
considerados anteriormente e pode ter, então, que complementar um modelo teórico.
Contribui-se, assim, para com o progresso da ciência. Pode-se também sugerir que
um determinado aspecto de um modelo teórico deva ser alterado a partir de evidências
da análise. Teorias devem ser vistas como recursos a serem utilizados e alterados se
for necessário.
Além de não haver língua melhor ou pior, não há línguas primitivas ou mais
evoluídas. Toda língua permite a expressão de qualquer conceito. Caso seja
necessário incorpora-se vocabulário novo ampliando-se o léxico da língua em
questão. Isto faz parte do caráter evolutivo das línguas. Todas as línguas mudam
continuamente.
Precisar exatamente as fronteiras geográficas de uma determinada língua
pode muitas vezes ser difícil. Ao viajarmos de Portugal à Espanha passando pela
Galícia não perceberemos nenhuma mudança abrupta do ponto de vista lingüístico.
Contudo, se sairmos de Portugal e viajarmos diretamente à Espanha identificaremos
as características do português falado em Portugal como bastante distintas do espanhol
falado na Espanha. O mesmo fenômeno pode ser observado em regiões de
fronteira do Brasil com outros países da América do Sul. O português e o espanhol
da fronteira tem várias características comuns. Portanto, definir uma língua ou
um dialeto transcende o caráter puramente lingüístico. Muitas vezes fatores
políticos e sociais têm forte influência nas delimitações geográficas das línguas.
Línguas que se desenvolvem sem interferência formal externa são chamadas
línguas naturais. O português é uma língua natural por evoluir de acordo com
parâmetros gerados pela própria língua a partir do uso feito pelos falantes. Há
também línguas artificiais (também chamadas línguas auxiliares). Uma língua
artificial é uma língua inventada com o propósito específico de comunicação ou
para fins de linguagem computacional. O esperanto é geralmente a língua artificial
mais difundida (criada em 1887 pelo polonês Ludwig Lazarus Zamenhof). O léxico
de tal língua foi construído com influência de línguas da Europa ocidental e há
influência de línguas eslavas na sintaxe e na ortografia.
O português é classificado como pertencendo a família de línguas românicas
do tronco indo-europeu. Estima-se que há aproximadamente 160 milhões de
Introdução
19
falantes [(cf. Crystal (1995)]. O português é língua oficial e majoritária no Brasil,
em Portugal e nas ilhas atlânticas da Madeira, dos Açores e de São Miguel. Alguns
países da África, cuja colonização foi feita por Portugal, têm o português como
língua oficial embora, em conjunto, as línguas nativas sejam majoritárias. Dentre
estes destacamos Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e
Príncipe. Na Ásia o português é falado em Macau, Damão, Diu Goa e na Oceânia
o português é falado em Timor Leste.
Há ainda as chamadas línguas crioulas que são derivadas do português. Tais
línguas surgiram como línguas francas com o propósito de permitir o comércio
entre falantes do português e de outras línguas. Criou-se então uma língua distinta
baseada no português e na(s) língua(s) nativa(s). Em seu estágio inicial tal língua é
denominada pidgin. Ao ter falantes nativos e adquirir um status dinâmico de língua
natural, tal língua passa a ser denominada crioulo [cf. Holm (1988) e Couto (1995)].
Há crioulos baseados em outras línguas além do português (como, por exemplo,
francês, inglês, etc). Dentre os crioulos derivados do português que se encontram
na África temos o da ilha de Cabo Verde, os das ilhas do golfo da Guiné (São
Tomé, Príncipe e Ano Bom), o da Guiné-Bissau e o de Casamance (no Senegal).
Na Ásia temos os crioulos de Malaca (na Malásia), de Macau (em Hong Kong), do
Srilanca (em Vaipim e Baticaloa) e na Índia temos crioulos em Chaul, Korlai,
Tellicherry, Cananor e Cochim. Na Oceânia há o crioulo de Tugu (perto de Jacarta).
Exercício 4
Consulte um atlas e identifique as áreas em que se falam o português e os crioulos
baseados na língua portuguesa.
Neste livro tratamos da organização do sistema sonoro com ênfase na
descrição do português brasileiro. Referência a outras variedades do português e a
outras línguas se dá quando não podemos exemplificar um determinado fenômeno
ou um certo aspecto teórico com exemplos do português brasileiro.
Tratamos do sistema sonoro do português do ponto de vista prático e teórico.
O objetivo básico deste livro é fornecer ao leitor o instrumental necessário para a
caracterização de sua fala. Pretende-se também fomentar o interesse pelos estudos
fonológicos. Este livro se divide em três partes: Fonética, Fonêmica e Modelos
Fonológicos. A primeira parte, intitulada Fonética, é dedicada ao estudo da fonética
articulatória aplicada ao português. Tratamos dos parâmetros envolvidos na
articulação dos segmentos vocálicos e consonantais e da organização de tais
segmentos na estrutura silábica. Espera-se que ao fazer os exercícios que
acompanham o texto o leitor identifique as características articulatórias específicas
dos segmentos consonantais e vocálicos que ocorrem em seu idioleto, descrevendo
assim, a sua variedade lingüística individual. Como conclusão temos que as
Introdução
20
respostas a vários exercícios da parte de Fonética podem diferir de uma pessoa
para outra. A segunda parte, intitulada Fonêmica, apresenta os princípios teóricos
e metodológicos da análise fonêmica. O leitor deve fazer os exercícios e postular
um sistema fonêmico para o português. Tal sistema é idêntico para todos os falantes
do português (sendo correlato ao sistema da língua proposto por Sausurre). As
particularidades da fala de cada indivíduo são expressas na análise de cada idioleto.
Finalmente, a terceira parte que é intitulada Modelos Fonológicos, apresenta uma
visão da trajetória pós-estruturalista da análise do componente sonoro: a fonologia.
Apontamos os princípios gerais de cada modelo e indicamos referências
bibliográficas primárias. Quando possível fornecemos bibliografia em português
e referências de análises que demonstrem a aplicabilidade de um determinado
modelo a dados da língua portuguesa. Sugerimos ainda uma série de tópicos teóricos
e aplicados que podem potencialmente gerar trabalhos de monografia, dissertaçtes
de mestrado ou teses de doutorado.
Pretendemos, portanto, introduzir o leitor ao estudo do componente sonoro
da linguagem com ênfase no português brasileiro. Não se espera qualquer
conhecimento prévio e assume-se que ao concluir a leitura e exercícios propostos
o leitor deve ser capaz de avaliar as características de sua fala e de outros falantes.
Espera-se também que o leitor possa discutir os pressupostos teóricos da análise
fonêmica e avaliar criticamente aspectos controvertidos do sistema sonoro do
português. Com a discussão apresentada na parte final deste livro espera-se
contribuir para que o leitor amplie seus conhecimentos teóricos dos vários modelos
fonológicos.
Para finalizar, apontamos áreas de trabalho que requerem profissionais com
formação em lingüística e mais especificamente nas áreas de fonética e fonologia.
2. Áreas de trabalho
Lingüística: O teórico da linguagem busca explicar os mecanismos subjacentes aos
sistemas lingüísticos. A compreensão dos sistemas sonoros das línguas, bem como a
relação destes sistemas com os demais componentes da gramática (como morfologia,
sintaxe, semântica) consistem no trabalho do pesquisador. Teóricos da linguagem
podem investigar um determinado aspecto da linguagem do ponto de vista sincrônico
ou podem empreender uma pesquisa de um aspecto diacrônico da língua escolhida.
Formação: Graduação em Letras e Lingüística e pós-graduação em áreas afins.
Ensino de língua materna: Ao conhecer em detalhes a estrutura sonora da língua
portuguesa, o profissional pode avaliar problemas enfrentados por estudantes e formular
propostas para solucioná-los. Tal conhecimento é sobretudo valioso aos alfabetizadores
e professores de português. Formação: Curso Normal (segundo grau) e Graduação
em Letras – português.
Introdução
21
Ensino de língua estrangeira: O professor de língua estrangeira deve conhecer bem
a língua que ensina e ser capaz de compará-la ao português. A comparação permite
avaliar problemas de interferência lingüística de uma língua na outra e formular
propostas para bloquear tal interferência. Formação: Graduação em Letras – português
e outra língua.
Planejamento lingüístico-social: A variedade lingüística em um país com a dimensão
territorial do Brasil impõe desafios. Em áreas com grande migração nacional deparase
com as diferenças lingüísticas entre o educador e os educandos. Muitas vezes
alunos com excelente potencial são excluídos do sistema educacional devido ao fato
de sua fala desviar da norma prescrita. A exclusão ocorre às vezes na mesma região
geográfica sendo que educador e educando compartilham de variedades lingüísticas
diferentes e problemas até mesmo de inteligibilidade podem surgir. Cabe ao planejador
educacional avaliar situações de conflito e propor alternativas para os problemas
existentes. Formação: Graduação em Letras, Pedagogia, Sociologia e Assistência
Social. Pós-graduação em áreas afins com pesquisa específica em planejamento.
Tradução e interpretação: A tradução e interpretação tornam-se áreas de trabalho
muito relevantes no mundo globalizante em que vivemos. Tradutores necessitam
conhecer os sistemas sonoros das línguas com que trabalham para explicar aspectos
que muitas vezes são opacos em textos escritos (a tradução de poesias e canções é
um caso explícito). Para o intérprete, o conhecimento dos sistemas sonoros das línguas
com que trabalha é fundamental para que o mínimo de incompreensão incorra durante
uma sessão de trabalho. Formação: Graduação em Letras, Tradução e pós-graduação
em áreas afins.
Dramaturgia: A expressão oral tem um papel fundamental na dramaturgia. Pense
por exemplo que um ator/atriz às vezes desempenha um papel cujo personagem tem
um sotaque diferente do seu. Colaboração profissional entre atores e profissionais
que trabalham com a linguagem se faz necessária. O lingüista pode também ensinar
aos atores o melhor meio de utilizar os mecanismos que permitam o uso pleno das
partes do corpo envolvidas na linguagem. Formação: Graduação em Letras, Teatro
e Escolas de Dramaturgia.
Fonoaudiologia: O profissional que trabalha com aspectos relacionados à patologia
da fala é o fonoaudiólogo. Este profissional deve conhecer bem os aspectos
articulatórios e acústicos envolvidos na produção da fala e também ser capaz de
avaliar a organização fonológica do sistema da língua em questão. Aspectos como a
gagueira ou a “troca de sons” na fala são tratados por fonoaudiólogos ou terapeutas
da fala. Formação: Graduação em Fonoaudiologia e pós-graduação em áreas afins
(como Lingüística, por exemplo).
Linguagem de surdo-mudo: Os sistemas de comunicação de pessoas que não escutam
ou que não falam têm uma complexidade gramatical específica e em princípio estão
sujeitos a mudanças lingüísticas semelhantes às que ocorrem nas línguas naturais. Há
vários sistemas de sinais utilizados por mudos. Alguns surdos podem utilizar a
linguagem oral se adequadamente orientados por profissionais. Formação:
Introdução
22
Graduação em Letras e áreas afins. Também o desenvolvimento de pesquisas em
cursos de pós-graduação em áreas afins (como a Lingüística, por exemplo).
Lingüística computacional: Um dos grandes desafios da ciência computacional é
encontrar correlatos acústicos da fala que sejam conversíveis em sinais digitais. Muito
tem sido desenvolvido nesta área nos últimos anos. Um exemplo da relação lingüísticacomputação
é a possibilidade de se obter e passar informações por telefone entre um
ser humano e um computador (via telefonia, por exemplo). Ao definir-se os aspectos
acústicos e articulatórios da língua e seu sistema fonológico, pode-se aperfeiçoar
mecanismos já existentes. Desafios são impostos sobretudo na área da sintaxe e
semântica. Formação: Graduação em Computação, Física e Lingüística e pósgraduação
em áreas afins.
Ciência da telecomunicação: A transmissão da fala em termos físicos impõe desafios
para a ciência. O som deve ser transmitido nitidamente para que não se perca conteúdo
de informação. A transmissão dos meios de comunicação – como rádio e televisão –
depende de pesquisa nesta área. Obter-se um meio eficaz, rápido e econômico de
transmitir a fala são ambições desta área de pesquisa. Formação: Graduação em
Computação, Física e Lingüística e pós-graduação em áreas afins.
Zoo-Biologia: Definir os parâmetros envolvidos na comunicação animal e caracterizar
a organização dos sistemas lingüísticos animais são tópicos de pesquisa na área de
zoo-biologia. Linguagens de chimpanzés, golfinhos, baleias e abelhas são relativamente
bem estudadas. Faz-se relevante caracterizar as relações de comunicação entre
diversos membros de uma mesma espécie em diferentes regiões do planeta. Formação:
Graduação em Lingüística, Biologia, Zootecnia e pós-graduação em áreas afins.
Lingüística forense: A fala de um indivíduo apresenta características específicas e
únicas. Estudos têm sido realizados para caracterizar as particularidades da fala
individual e definir os parâmetros do que corresponde à “impressão digital” da fala.
Espera-se que o progresso nesta área de pesquisa permita a utilização de evidências
da fala em tribunais. Formação: Graduação em Lingüística com complementação
das áreas de Física e Direito. Pós-graduação em áreas afins.
Lingüística indígena: Temos hoje aproximadamente 120 línguas indígenas faladas
em todo o território brasileiro. Destas, apenas umas poucas foram amplamente
estudadas. Do ponto de vista teórico o estudo destas línguas permite a ampliação do
conhecimento dos mecanismos que regulam as línguas naturais. Do ponto de vista
prático registra-se tecnicamente a língua nativa que pode ser eventualmente utilizada
em projetos educacionais se for de interesse da comunidade. Formação: Graduação
em Lingüística, Letras, Antropologia e pós-graduação em áreas afins.
Introdução
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
FONOLOGIA
Fonologia
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Fonologia (do Grego phonos = voz/som e logos = palavra/estudo) é o ramo da Linguística que estuda o sistema sonoro de um idioma. Esta é uma área muito relacionada com a Fonética, mas as duas têm focos de estudo diferentes. Enquanto a Fonética estuda a natureza física da produção e da percepção dos sons da fala (chamados de fones), a Fonologia preocupa-se com a maneira como eles se organizam dentro de uma língua, classificando-os em unidades capazes de distinguir significados, chamadas fonemas.
/f/ e /v/ são exemplos de unidades distintivas do Português. É o que podemos observar num par mínimo como faca/vaca, pois o que garante a diferenciação entre essas duas palavras é a permutação entre os dois fonemas referidos. Unidades como [t] e [tʃ], por sua vez, não fazem distinção entre palavras no português, embora sejam diferentes sob a ótica da Fonética. Em muitas variedades do português, o fonema /t/ é pronunciado de maneiras diferentes, dependendo de sua posição relativa a outros sons: diante de [i], é realizado como [tʃ], ao passo que, diante de outras vogais, é pronunciado como [t] (cf. a diferença na pronúncia do primeiro som das palavras tipo e topo). Por não haver contraste entre as duas formas de pronúncia, a Fonologia não concebe os dois sons como fonemas distintos; entende-os como uma unidade do ponto de vista funcional e examina as condições sob as quais se dá a alternância entre eles.
Além disso, a Fonologia também estuda outros tópicos, como a estrutura silábica, o acento e a entonação.
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Fonologia (do Grego phonos = voz/som e logos = palavra/estudo) é o ramo da Linguística que estuda o sistema sonoro de um idioma. Esta é uma área muito relacionada com a Fonética, mas as duas têm focos de estudo diferentes. Enquanto a Fonética estuda a natureza física da produção e da percepção dos sons da fala (chamados de fones), a Fonologia preocupa-se com a maneira como eles se organizam dentro de uma língua, classificando-os em unidades capazes de distinguir significados, chamadas fonemas.
/f/ e /v/ são exemplos de unidades distintivas do Português. É o que podemos observar num par mínimo como faca/vaca, pois o que garante a diferenciação entre essas duas palavras é a permutação entre os dois fonemas referidos. Unidades como [t] e [tʃ], por sua vez, não fazem distinção entre palavras no português, embora sejam diferentes sob a ótica da Fonética. Em muitas variedades do português, o fonema /t/ é pronunciado de maneiras diferentes, dependendo de sua posição relativa a outros sons: diante de [i], é realizado como [tʃ], ao passo que, diante de outras vogais, é pronunciado como [t] (cf. a diferença na pronúncia do primeiro som das palavras tipo e topo). Por não haver contraste entre as duas formas de pronúncia, a Fonologia não concebe os dois sons como fonemas distintos; entende-os como uma unidade do ponto de vista funcional e examina as condições sob as quais se dá a alternância entre eles.
Além disso, a Fonologia também estuda outros tópicos, como a estrutura silábica, o acento e a entonação.
FONÉTICA
Fonética
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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A Fonética é o ramo da Linguística que estuda os sons da fala humana. Suas subdivisões são:
Fonética articulatória: estuda como os sons são produzidos, isto é, a posição e a função de cada um dos órgãos do aparelho fonador (língua, lábios, etc.);
Fonética acústica: analisa as características físicas dos sons da fala, ou seja, as ondas mecânicas produzidas;
Fonética auditiva: tem como objetivo o estudo de que maneira é percebida a fala (como a audição distingue os sons).
A unidade básica de estudo para a Fonética é o fone. A fala humana é capaz de produzir inúmeros fones. A forma mais comum de representar os fones pelos linguistas é através do Alfabeto fonético internacional (AFI), desenhado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.).
Alguns fones são auditivamente próximos entre si a ponto de se tornarem indistinguíveis. Por exemplo, o som de "rr" em alguns dialetos do português do Brasil é realizado foneticamente pela consoante fricativa velar surda (x no AFI). Entretanto, essa pode ser substituída pela consoante fricativa glotal surda (h no AFI) que a palavra que nela estiver continuará a ser reconhecida. A esse fenômeno, dá-se em fonologia o nome de alofonia. Assim, [x] e [h] são alofones do "erre" forte em português brasileiro. Um grupo composto de um fone e seus alofones para os falantes de um idioma é denominado fonema. Deve-se ressaltar que a alofonia entre dois fones é relativa. Por exemplo, no Alemão compõem fonemas separados.
O estudo dos fonemas é desenvolvido pela Fonologia. A fonologia e a fonética são frequentemente confundidas porque os conceitos de fone e fonema também geram confusão.
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A Fonética é o ramo da Linguística que estuda os sons da fala humana. Suas subdivisões são:
Fonética articulatória: estuda como os sons são produzidos, isto é, a posição e a função de cada um dos órgãos do aparelho fonador (língua, lábios, etc.);
Fonética acústica: analisa as características físicas dos sons da fala, ou seja, as ondas mecânicas produzidas;
Fonética auditiva: tem como objetivo o estudo de que maneira é percebida a fala (como a audição distingue os sons).
A unidade básica de estudo para a Fonética é o fone. A fala humana é capaz de produzir inúmeros fones. A forma mais comum de representar os fones pelos linguistas é através do Alfabeto fonético internacional (AFI), desenhado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.).
Alguns fones são auditivamente próximos entre si a ponto de se tornarem indistinguíveis. Por exemplo, o som de "rr" em alguns dialetos do português do Brasil é realizado foneticamente pela consoante fricativa velar surda (x no AFI). Entretanto, essa pode ser substituída pela consoante fricativa glotal surda (h no AFI) que a palavra que nela estiver continuará a ser reconhecida. A esse fenômeno, dá-se em fonologia o nome de alofonia. Assim, [x] e [h] são alofones do "erre" forte em português brasileiro. Um grupo composto de um fone e seus alofones para os falantes de um idioma é denominado fonema. Deve-se ressaltar que a alofonia entre dois fones é relativa. Por exemplo, no Alemão compõem fonemas separados.
O estudo dos fonemas é desenvolvido pela Fonologia. A fonologia e a fonética são frequentemente confundidas porque os conceitos de fone e fonema também geram confusão.
Fonética e Fonologia
CAPÍTULO 2: TEORIA ACÚSTICA DA PRODUÇÃO DA FALA (IN: Kent & Read,
1992) Tradução de Alexsandro R. Meireles (alexsandro_meireles@hotmail.com)
Este capítulo resume uma teoria conhecida na literatura fonética como teoria fonte-filtro
linear da produção da fala. O livro Acoustic Theory of Speech Production de Fant
(1960a) serve como referência básica. Esta teoria é importante para se entender as relações
acústico-articulatórias, bem como fornece fundamentos para muitos procedimentos
necessários a uma análise acústica da fala. Somente linhas gerais da teoria serão
apresentadas aqui. O leitor que precisar de uma descrição mais detalhada deve ler o livro de
Fant, que é altamente recomendado para qualquer interessado na acústica da fala. A teoria
acústica da fala apresentada aqui será discutida em termos das seguintes principais classes
sonoras: vogais, fricativas, nasais, oclusivas, africadas, líquidas, ditongos e semivogais. As
três primeiras – vogais, fricativas e nasais – serão discutidas mais detalhadamente, pois
ilustram princípios que podem ser aplicados a outras classes sonoras. Por exemplo, a
semivogal /w/, como em "way", pode ser entendida como uma modificação da teoria da
produção de vogais.
Alguns diagramas simples ajudarão a identificar as principais características de
interesse. Vogais são sons produzidos com vibração laríngea (de modo que o vozeamento é
a fonte de energia) e com o aparelho fonador relativamente aberto, modificado para
produzir padrões específicos de ressonâncias (de modo que o aparelho fonador inteiro
funciona como um filtro, ou um sistema de transmissão selecionador de freqüências). Um
diagrama geral para as vogais é dado na figura 2-1a. Modificações deste diagrama serão
usadas para modelar as líquidas e as semivogais. As fricativas são produzidas com uma
constrição estreita em algum ponto do aparelho fonador, como retratado na figura 2-1b. O
1992) Tradução de Alexsandro R. Meireles (alexsandro_meireles@hotmail.com)
Este capítulo resume uma teoria conhecida na literatura fonética como teoria fonte-filtro
linear da produção da fala. O livro Acoustic Theory of Speech Production de Fant
(1960a) serve como referência básica. Esta teoria é importante para se entender as relações
acústico-articulatórias, bem como fornece fundamentos para muitos procedimentos
necessários a uma análise acústica da fala. Somente linhas gerais da teoria serão
apresentadas aqui. O leitor que precisar de uma descrição mais detalhada deve ler o livro de
Fant, que é altamente recomendado para qualquer interessado na acústica da fala. A teoria
acústica da fala apresentada aqui será discutida em termos das seguintes principais classes
sonoras: vogais, fricativas, nasais, oclusivas, africadas, líquidas, ditongos e semivogais. As
três primeiras – vogais, fricativas e nasais – serão discutidas mais detalhadamente, pois
ilustram princípios que podem ser aplicados a outras classes sonoras. Por exemplo, a
semivogal /w/, como em "way", pode ser entendida como uma modificação da teoria da
produção de vogais.
Alguns diagramas simples ajudarão a identificar as principais características de
interesse. Vogais são sons produzidos com vibração laríngea (de modo que o vozeamento é
a fonte de energia) e com o aparelho fonador relativamente aberto, modificado para
produzir padrões específicos de ressonâncias (de modo que o aparelho fonador inteiro
funciona como um filtro, ou um sistema de transmissão selecionador de freqüências). Um
diagrama geral para as vogais é dado na figura 2-1a. Modificações deste diagrama serão
usadas para modelar as líquidas e as semivogais. As fricativas são produzidas com uma
constrição estreita em algum ponto do aparelho fonador, como retratado na figura 2-1b. O
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Prova UniRio 2007
TEXTO I
LADAINHA
Cassiano Ricardo
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extracorporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.
1) O movimento modernista se firma como doutrina estética, trazendo um questionamento, marcado, por vezes, pela ironia. Do
poema de Cassiano Ricardo, transcreva uma seqüência de dois versos em que há a presença de traço sutil de ironia.
2) No poema, o eu-lírico se vale de um recurso característico da poesia concreta: a fragmentação de palavras. Que efeito de
sentido ocorre na 2ª. estrofe devido à disposição da palavra “ extracorporal” ?
3) Explique por que a seqüência de orações interrogativas da 3a estrofe retoma, enfaticamente, o título do poema.
TEXTO II
SECRETÁRIA
Luis Fernando Verissimo
O teste definitivo para você saber se está ou não integrado no mundo moderno é a secretária eletrônica. O que você faz
quando liga para alguém e quem atende é uma máquina.
Tem gente que nem pensa nisso. Falam com a secretária eletrônica com a maior naturalidade, qual é o problema? É apenas
um gravador com uma função a mais. Mas aí é que está. Não é uma máquina como qualquer outra.É uma máquina de atender
telefone. O telefone ( que eu não sei como funciona, ainda estou tentando entender o estilingue) pressupõe um contato com
alguém, não com alguma coisa. A secretária eletrônica abre um buraco nesta expectativa estabelecida. É desconcertante.
Atendem — e é alguém dizendo que não está lá! Seguem instruções para esperar o bip e gravar a mensagem.
É aí que começa o teste. Como falar com ninguém no telefone? Um telefonema é como aqueles livros que a gente gosta de ler,
que só tem diálogos. É travessão você fala, travessão fala o outro. E de repente você está falando sozinho. Não é nem monólogo.
É diálogo só de um.
— Ahn, sim, bom, mmm ... olha, eu telefono depois. Tchau.
O “tchau” é para a máquina. Porque temos este absurdo medo de magoá-la. Medo de que a máquina nos telefone de volta e
nos xingue, ou pelo menos nos bipe com reprovação.
Sei de gente que muda a voz para falar com secretária eletrônica. Fica formal, cuida a construção da frase. Às vezes precisa
resistir à tentação de ligar de novo para regravar a mensagem porque errou a colocação do pronome.
Outros não resistem. Ao saber que estão sendo gravados, limpam a garganta, esperam o bip e anunciam:
— De Augustin Lara ...
E gravam um bolero.
Talvez seja a única atitude sensata.
4) Ao longo da crônica, são apresentados tipos de pessoas caracterizados pela atitude que manifestam em relação à secretária
eletrônica. Explique que tipos são esses.
5) a) Transcreva a frase que indica ter também o narrador medo da secretária eletrônica.
b) Explique o recurso lingüístico que permite inferir esse fato.
TEXTO III
Falso mar, falso mundo
Raquel de Queiroz
O mundo anda cada vez mais complicado, o que não é bom. O nosso frágil corpo humano não foi feito para competir
com a máquina, conviver com a máquina e explorá-la. A cada adiantamento técnico-científico, o conflito fica mais duro para o
nosso lado. A massificação da vida cotidiana, por exemplo. (...)
Viajar de avião — quem não tem medo adora. Por mim, detesto. Não tenho medo, mas também não acho agradável a
idéia de que estamos todos nós ali, arrumadinhos, em filas simétricas, dentro daquela lata voadora... Um menino que estudava
ciências me explicou que o vôo dos aviões a jato era comandado pelas leis da balística: o motor funciona como uma pistola
automática que constantemente estivesse disparando. O vôo é mantido pela explosão contínua do jato, como a bala é impulsionada
pela explosão da pólvora. O avião não pode cair enquanto o jato estiver mandando o seu impulso. ( Estaria o menino certo?
Tinha só doze anos!) . Mas, de qualquer forma, me senti segura e tranqüilizei os medrosos: todos sabemos que uma bala jamais
cai a meio do caminho antes de chegar ao seu ponto de alcance. Só uma senhora gorda, que mantinha a mão enfiada na bolsa,
debulhando secretamente o seu terço; essa ficou até pior, dizendo que a coisa de que tinha mais medo era de tiro, e a gente,
então, era voada por tiro? Puxou pra fora o terço e eu nunca mais tentei tranqüilizar ninguém em avião.
Mas nesta semana vi na TV uma reportagem que me horrorizou como prova de que, a cada dia, mais renunciamos às
nossas prerrogativas de seres vivos e nos tornamos robotizados. Foi a “ Praia Artificial” no Japão ( logo no Japão, arquipélago
penetrado e cercado de mar por todos os lados!). É um galpão imenso, maior do que qualquer aeroporto, coberto por uma
espécie de cúpula oblonga, de plástico. (...) Pois que debaixo daquele imenso teto de plástico está um mar, com a sua praia.
Mar que, na tela, aparece bem azul com ondas de verdade, coroadas de espuma branca; ondas que chegam a derrubar as
pessoas e sobre as quais jovens atletas surfam e rebolam. E um falso sol, de luz e calor graduáveis; e a praia é de areia
composta por pedrinhas de mármore, a cujo contato algumas moças de biquíni se queixavam de que doía um pouco. “Mas valia
a pena.”(...)
(...) Se fosse uma honesta piscina de água morna, tudo bem. Mas fingir as ondas, falsificar um sol bronzeando, de trinta e cinco
graus, e toda aquela gente se deitando com a simulação, e depois voltando para a rua vestida nos seus casacos! Me deu pena,
horror, sei lá. (...)
6) Explique o sentido da expressão “lata voadora” no 2o parágrafo.
7) O leitor pode observar uma quebra na seqüência discursiva. Interprete qual a função dos 2º e 3º parágrafos na progressão
textual, que atende à intenção comunicativa do produtor do texto.
8) Transcreva, dos textos II e III, um segmento que exemplifique, respectivamente, o verso “A máquina o fará por nós.”
(Texto I,v.14)
TEXTO IV
A memória não pode ser deletada
Augusto Cury
Nos computadores, a tarefa mais simples é deletar ou apagar as informações. No homem, isso é impossível, a não ser
quando há lesões cerebrais. Você pode tentar com todas as suas forças apagar seus traumas, pode tentar com toda a sua
habilidade destruir as pessoas que o decepcionaram, bem como os momentos mais difíceis de sua vida, mas não terá êxito.
A única possibilidade de resolver nossos conflitos (...) é reeditar os arquivos da memória, através do registro de novas
experiências sobre as experiências negativas, nos arquivos onde elas estão armazenadas. Por exemplo, a segurança, a
tranqüilidade e o prazer devem ser arquivados nas áreas da memória que contenham experiências de insegurança, ansiedade,
humor triste.
Para reeditar o filme do inconsciente existem muitas técnicas, sejam técnicas cognitivas que atuam nos sintomas, sejam
técnicas analíticas que atuam nas causas.
O ideal é unir as duas. Uma excelente maneira de uni-las é gerenciar os pensamentos e as emoções. Deste modo,
deixaremos de ser marionetes dos nossos conflitos e passaremos a ser diretores do teatro de nossa mente.
9) Para efeitos de argumentação, o emissor do texto IV apresenta exemplo, enfatizado por recurso semântico. Explique que
recurso é esse e no que ele contribui para o entendimento do 3º. Parágrafo.
10) Reescreva o segmento “ ... a não ser quando há lesões cerebrais.” ( Texto IV, 1º. §), substituindo a expressão sublinhada,
respectivamente, por
a) a menos que
b) só se
TEXTO I
LADAINHA
Cassiano Ricardo
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extracorporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.
1) O movimento modernista se firma como doutrina estética, trazendo um questionamento, marcado, por vezes, pela ironia. Do
poema de Cassiano Ricardo, transcreva uma seqüência de dois versos em que há a presença de traço sutil de ironia.
2) No poema, o eu-lírico se vale de um recurso característico da poesia concreta: a fragmentação de palavras. Que efeito de
sentido ocorre na 2ª. estrofe devido à disposição da palavra “ extracorporal” ?
3) Explique por que a seqüência de orações interrogativas da 3a estrofe retoma, enfaticamente, o título do poema.
TEXTO II
SECRETÁRIA
Luis Fernando Verissimo
O teste definitivo para você saber se está ou não integrado no mundo moderno é a secretária eletrônica. O que você faz
quando liga para alguém e quem atende é uma máquina.
Tem gente que nem pensa nisso. Falam com a secretária eletrônica com a maior naturalidade, qual é o problema? É apenas
um gravador com uma função a mais. Mas aí é que está. Não é uma máquina como qualquer outra.É uma máquina de atender
telefone. O telefone ( que eu não sei como funciona, ainda estou tentando entender o estilingue) pressupõe um contato com
alguém, não com alguma coisa. A secretária eletrônica abre um buraco nesta expectativa estabelecida. É desconcertante.
Atendem — e é alguém dizendo que não está lá! Seguem instruções para esperar o bip e gravar a mensagem.
É aí que começa o teste. Como falar com ninguém no telefone? Um telefonema é como aqueles livros que a gente gosta de ler,
que só tem diálogos. É travessão você fala, travessão fala o outro. E de repente você está falando sozinho. Não é nem monólogo.
É diálogo só de um.
— Ahn, sim, bom, mmm ... olha, eu telefono depois. Tchau.
O “tchau” é para a máquina. Porque temos este absurdo medo de magoá-la. Medo de que a máquina nos telefone de volta e
nos xingue, ou pelo menos nos bipe com reprovação.
Sei de gente que muda a voz para falar com secretária eletrônica. Fica formal, cuida a construção da frase. Às vezes precisa
resistir à tentação de ligar de novo para regravar a mensagem porque errou a colocação do pronome.
Outros não resistem. Ao saber que estão sendo gravados, limpam a garganta, esperam o bip e anunciam:
— De Augustin Lara ...
E gravam um bolero.
Talvez seja a única atitude sensata.
4) Ao longo da crônica, são apresentados tipos de pessoas caracterizados pela atitude que manifestam em relação à secretária
eletrônica. Explique que tipos são esses.
5) a) Transcreva a frase que indica ter também o narrador medo da secretária eletrônica.
b) Explique o recurso lingüístico que permite inferir esse fato.
TEXTO III
Falso mar, falso mundo
Raquel de Queiroz
O mundo anda cada vez mais complicado, o que não é bom. O nosso frágil corpo humano não foi feito para competir
com a máquina, conviver com a máquina e explorá-la. A cada adiantamento técnico-científico, o conflito fica mais duro para o
nosso lado. A massificação da vida cotidiana, por exemplo. (...)
Viajar de avião — quem não tem medo adora. Por mim, detesto. Não tenho medo, mas também não acho agradável a
idéia de que estamos todos nós ali, arrumadinhos, em filas simétricas, dentro daquela lata voadora... Um menino que estudava
ciências me explicou que o vôo dos aviões a jato era comandado pelas leis da balística: o motor funciona como uma pistola
automática que constantemente estivesse disparando. O vôo é mantido pela explosão contínua do jato, como a bala é impulsionada
pela explosão da pólvora. O avião não pode cair enquanto o jato estiver mandando o seu impulso. ( Estaria o menino certo?
Tinha só doze anos!) . Mas, de qualquer forma, me senti segura e tranqüilizei os medrosos: todos sabemos que uma bala jamais
cai a meio do caminho antes de chegar ao seu ponto de alcance. Só uma senhora gorda, que mantinha a mão enfiada na bolsa,
debulhando secretamente o seu terço; essa ficou até pior, dizendo que a coisa de que tinha mais medo era de tiro, e a gente,
então, era voada por tiro? Puxou pra fora o terço e eu nunca mais tentei tranqüilizar ninguém em avião.
Mas nesta semana vi na TV uma reportagem que me horrorizou como prova de que, a cada dia, mais renunciamos às
nossas prerrogativas de seres vivos e nos tornamos robotizados. Foi a “ Praia Artificial” no Japão ( logo no Japão, arquipélago
penetrado e cercado de mar por todos os lados!). É um galpão imenso, maior do que qualquer aeroporto, coberto por uma
espécie de cúpula oblonga, de plástico. (...) Pois que debaixo daquele imenso teto de plástico está um mar, com a sua praia.
Mar que, na tela, aparece bem azul com ondas de verdade, coroadas de espuma branca; ondas que chegam a derrubar as
pessoas e sobre as quais jovens atletas surfam e rebolam. E um falso sol, de luz e calor graduáveis; e a praia é de areia
composta por pedrinhas de mármore, a cujo contato algumas moças de biquíni se queixavam de que doía um pouco. “Mas valia
a pena.”(...)
(...) Se fosse uma honesta piscina de água morna, tudo bem. Mas fingir as ondas, falsificar um sol bronzeando, de trinta e cinco
graus, e toda aquela gente se deitando com a simulação, e depois voltando para a rua vestida nos seus casacos! Me deu pena,
horror, sei lá. (...)
6) Explique o sentido da expressão “lata voadora” no 2o parágrafo.
7) O leitor pode observar uma quebra na seqüência discursiva. Interprete qual a função dos 2º e 3º parágrafos na progressão
textual, que atende à intenção comunicativa do produtor do texto.
8) Transcreva, dos textos II e III, um segmento que exemplifique, respectivamente, o verso “A máquina o fará por nós.”
(Texto I,v.14)
TEXTO IV
A memória não pode ser deletada
Augusto Cury
Nos computadores, a tarefa mais simples é deletar ou apagar as informações. No homem, isso é impossível, a não ser
quando há lesões cerebrais. Você pode tentar com todas as suas forças apagar seus traumas, pode tentar com toda a sua
habilidade destruir as pessoas que o decepcionaram, bem como os momentos mais difíceis de sua vida, mas não terá êxito.
A única possibilidade de resolver nossos conflitos (...) é reeditar os arquivos da memória, através do registro de novas
experiências sobre as experiências negativas, nos arquivos onde elas estão armazenadas. Por exemplo, a segurança, a
tranqüilidade e o prazer devem ser arquivados nas áreas da memória que contenham experiências de insegurança, ansiedade,
humor triste.
Para reeditar o filme do inconsciente existem muitas técnicas, sejam técnicas cognitivas que atuam nos sintomas, sejam
técnicas analíticas que atuam nas causas.
O ideal é unir as duas. Uma excelente maneira de uni-las é gerenciar os pensamentos e as emoções. Deste modo,
deixaremos de ser marionetes dos nossos conflitos e passaremos a ser diretores do teatro de nossa mente.
9) Para efeitos de argumentação, o emissor do texto IV apresenta exemplo, enfatizado por recurso semântico. Explique que
recurso é esse e no que ele contribui para o entendimento do 3º. Parágrafo.
10) Reescreva o segmento “ ... a não ser quando há lesões cerebrais.” ( Texto IV, 1º. §), substituindo a expressão sublinhada,
respectivamente, por
a) a menos que
b) só se
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
GESTÃO EDUCACIONAL E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO
ATIVIDADES
Pág. 50/51
Pesquise nas obras de Gramsci o que vem a ser “dirigir” uma escola unitária.
Resposta: Dirigir; dirigir-se, ter autonomia, possibilidade de ser dirigente. Tal trabalho – de governo – segundo a reforma de Gentile ficaria a cargo de um grupo seleto, isto é, dos que passaram pela escola superior. Por isso, esta reforma está destinada a reproduzir a sociedade existente. Aconteceria ao contrário na escola unitária; lá todos teriam a mesma formação, a mesma oportunidade e o estado está encarregado de dar-lhes isto.
O que vem a ser administrar uma escola?
Resposta: É o planejamento a avaliação, é a função que assegura a manutenção de uma estrutura e o regime de uma atividade na realização de um programa/ projeto. É uma influência consciente sobre determinado/ específico contexto com a finalidade de organizar, ordenar, manter aperfeiçoar e desenvolver uma programação planejada coletivamente. Administrar é uma técnica que qualquer entidade deve usar para atingir os objetivos com técnica e atuação profissional.
Como reconstruir a escola hoje?
Resposta: Temos que preparar para armar um sistema educacional para todo o nosso tempo de vida, aquilo que costuma ser chamado de Educação Permanente: um sistema que nos coloque em contato com o contínuo aumento dos conhecimentos e fontes de informação, satisfazendo a necessidade que todos têm de “compreender e controlar os resultados das pesquisas científicas e da inovação tecnológica que cada vez mais se articulam com a vida, os valores, os direitos individuais”; um sistema que assimile as transformações do trabalho e se interrogue a respeito de quais devem ser os conhecimentos “fundamentais” para que possamos viver como cidadãos conscientes em sociedades complexas e fragmentadas.
A reconstrução da escola só avançará a medida que puder contar com sujeitos e projetos. Não se trata apenas de conquistar as massas ou de sensibilizar a opinião pública, mas de encontrar formas de elevar os próprios educadores a condição de protagonistas da reforma.
Pág. 60/61
O que é mais importante: ser individualista ou solidário? Por quê?
Resposta: (pessoal) Solidário, pois somente através da solidariedade podemos contribuir e compartilhar, crescer e ajudar no crescimento dos demais.
É possível ser individualista e solidário ao mesmo tempo? Por quê?
Resposta: Não, porque o individualismo em si, refere-se a um conduta egocêntrica, visando apenas a si próprio.
A partir da história que leu nas páginas 55 e 56, escreva o que entende por “cultura do eu” e por “cultura do nós”.
Resposta: “Cultura do eu”, é pensar no individual, realizar benefícios para si, sem pensar no próximo. “Cultura do nós” é trabalhar em conjunto fazer o bem ao próximo, não pensar só em si, viver em comunidade para uma convivência mais humana e construir um mundo melhor somente com a participação a solidariedade o espírito de que só o trabalho coletivo podem construir seres humanos e a sociedade.
O que significa, para você, participação? Como podemos desenviolver a participação em nossas escolas?
Resposta: Participação é o meio pelo qual, podemos ser agentes transformadores, colaborando com esforços atos e idéias.
É importante a participação na gestão escolar? Por quê? Para quê?
Resposta: Sim o processo se gestão e o processo de coordenação da execução de uma linha de ação. È garantir a qualidade do que foi planejado e está nas políticas para ser executado
Pág. 67
Para aprofundamento de conteúdos específicos, além dos citados nas referências, leia e sintetize os conteúdos da obra de Vitor Henrique Paro:
PARO, V.H. Reprovação Escolar: renúncia à Educação. São Paulo: Xamã, 2001
____. Eleição de Diretores: escola pública experimenta a democracia. Campinas: Papirus, 1996.
Resposta: Paro (2001), dá ênfase à avaliação como responsável pelo fracasso escolar. Pesquisando sobre a resistência dos professores à promoção de seus alunos e a insistência na reprovação escolar se constitui numa “renúncia a Educação”.
De acordo com Paro (1996), a defesa da eleição como critério de escolha do diretor de escola está baseada em seu caráter democrático. É contraditório pensar na existência de uma sociedade democrática, sem considerar a democratização das instituições que compõem essa sociedade, possibilitando inclusive à população controlar o Estado no pavimento de serviços coletivos em quantidade e qualidade compatíveis com as obrigações do poder público em atendimento aos interesses dessa sociedade.
“Daí a relevância de se considerar a eleição direta, por parte do pessoal escolar, alunos e comunidade, como um dos critérios de escolha de diretor de escola pública” (PARO, 1996, p. 26-27)
ATIVIDADES
Pág. 50/51
Pesquise nas obras de Gramsci o que vem a ser “dirigir” uma escola unitária.
Resposta: Dirigir; dirigir-se, ter autonomia, possibilidade de ser dirigente. Tal trabalho – de governo – segundo a reforma de Gentile ficaria a cargo de um grupo seleto, isto é, dos que passaram pela escola superior. Por isso, esta reforma está destinada a reproduzir a sociedade existente. Aconteceria ao contrário na escola unitária; lá todos teriam a mesma formação, a mesma oportunidade e o estado está encarregado de dar-lhes isto.
O que vem a ser administrar uma escola?
Resposta: É o planejamento a avaliação, é a função que assegura a manutenção de uma estrutura e o regime de uma atividade na realização de um programa/ projeto. É uma influência consciente sobre determinado/ específico contexto com a finalidade de organizar, ordenar, manter aperfeiçoar e desenvolver uma programação planejada coletivamente. Administrar é uma técnica que qualquer entidade deve usar para atingir os objetivos com técnica e atuação profissional.
Como reconstruir a escola hoje?
Resposta: Temos que preparar para armar um sistema educacional para todo o nosso tempo de vida, aquilo que costuma ser chamado de Educação Permanente: um sistema que nos coloque em contato com o contínuo aumento dos conhecimentos e fontes de informação, satisfazendo a necessidade que todos têm de “compreender e controlar os resultados das pesquisas científicas e da inovação tecnológica que cada vez mais se articulam com a vida, os valores, os direitos individuais”; um sistema que assimile as transformações do trabalho e se interrogue a respeito de quais devem ser os conhecimentos “fundamentais” para que possamos viver como cidadãos conscientes em sociedades complexas e fragmentadas.
A reconstrução da escola só avançará a medida que puder contar com sujeitos e projetos. Não se trata apenas de conquistar as massas ou de sensibilizar a opinião pública, mas de encontrar formas de elevar os próprios educadores a condição de protagonistas da reforma.
Pág. 60/61
O que é mais importante: ser individualista ou solidário? Por quê?
Resposta: (pessoal) Solidário, pois somente através da solidariedade podemos contribuir e compartilhar, crescer e ajudar no crescimento dos demais.
É possível ser individualista e solidário ao mesmo tempo? Por quê?
Resposta: Não, porque o individualismo em si, refere-se a um conduta egocêntrica, visando apenas a si próprio.
A partir da história que leu nas páginas 55 e 56, escreva o que entende por “cultura do eu” e por “cultura do nós”.
Resposta: “Cultura do eu”, é pensar no individual, realizar benefícios para si, sem pensar no próximo. “Cultura do nós” é trabalhar em conjunto fazer o bem ao próximo, não pensar só em si, viver em comunidade para uma convivência mais humana e construir um mundo melhor somente com a participação a solidariedade o espírito de que só o trabalho coletivo podem construir seres humanos e a sociedade.
O que significa, para você, participação? Como podemos desenviolver a participação em nossas escolas?
Resposta: Participação é o meio pelo qual, podemos ser agentes transformadores, colaborando com esforços atos e idéias.
É importante a participação na gestão escolar? Por quê? Para quê?
Resposta: Sim o processo se gestão e o processo de coordenação da execução de uma linha de ação. È garantir a qualidade do que foi planejado e está nas políticas para ser executado
Pág. 67
Para aprofundamento de conteúdos específicos, além dos citados nas referências, leia e sintetize os conteúdos da obra de Vitor Henrique Paro:
PARO, V.H. Reprovação Escolar: renúncia à Educação. São Paulo: Xamã, 2001
____. Eleição de Diretores: escola pública experimenta a democracia. Campinas: Papirus, 1996.
Resposta: Paro (2001), dá ênfase à avaliação como responsável pelo fracasso escolar. Pesquisando sobre a resistência dos professores à promoção de seus alunos e a insistência na reprovação escolar se constitui numa “renúncia a Educação”.
De acordo com Paro (1996), a defesa da eleição como critério de escolha do diretor de escola está baseada em seu caráter democrático. É contraditório pensar na existência de uma sociedade democrática, sem considerar a democratização das instituições que compõem essa sociedade, possibilitando inclusive à população controlar o Estado no pavimento de serviços coletivos em quantidade e qualidade compatíveis com as obrigações do poder público em atendimento aos interesses dessa sociedade.
“Daí a relevância de se considerar a eleição direta, por parte do pessoal escolar, alunos e comunidade, como um dos critérios de escolha de diretor de escola pública” (PARO, 1996, p. 26-27)
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